28 de agosto de 2015

A Corrupção, o Facebook, a Felicidade e o Medo da Morte via Hamlet, de Shakespeare

Leandro Karnal é historiador, professor, escritor, filósofo, etc.
Não posso dizer que concordo com cem por cento do que ele fala, mas isso é o natural, não é mesmo? Mas também não posso deixar de reconhecer que é um dos maiores pensadores brasileiros da atualidade.
Selecionei três pequenos trechos de uma recente palestra que ele fez sobre a peça "Hamlet" de Shakespeare.
Calma, não desistam porque citei esse tema difícil.
Ao tomar como base Hamlet ele fala - entre outras coisas - da "necessidade" do Facebook, do conceito de felicidade, da corrupção no Brasil, do medo que temos da morte e de tantos outros temas atuais.
Se tiverem oportunidade assistam no You Tube a palestra inteira.
Mas enquanto isso, deem uma olhada nesses três videos.
Tenho certeza que vão gostar (mas podem até não concordar...).





21 de agosto de 2015

Rio das Ostras Jazz & Blues Festival 2015

E não poderia de deixar de postar aqui que começou ontem (e vai até domingo) um dos maiores festivais do país e que já consta na lista dos melhores do mundo quando o assunto é Jazz e Blues.
É o Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, edição 2015!
Ano passado foi transmitido ao vivo pelo G1. Não sei se este ano vão repetir a dose, mas vale a pena conferir (inclusive também em canal do You Tube), caso não possa estar presente lá.
Compareci a todas as primeiras 12 edições. Nesta 13ª, devido à leve problema de saúde, não estarei lá. Tudo bem, outros virão.



17 de agosto de 2015

Mauro Santayana: O PT, o Facebook e as mortes de Lula e Dilma


O PT, O FACEBOOK, E AS MORTES DE LULA E DE DILMA
"O Instituto Lula pediu ao Facebook que retire da rede a página em que centenas de usuários de direita e extrema direita pedem a morte do ex-presidente da República, na qual aparece também, em um comentário, a mórbida, macabra, montagem acima (Nota deste blog: optamos por não reproduzir a montagem que mostra Dilma em um caixão), mas nenhuma atitude foi tomada pela empresa até agora.

Como quase sempre ocorre do ponto de vista da comunicação, e de sua própria defesa, a assessoria de Lula errou estrategicamente e errou feio.

Páginas como essa, e a da comunidade MORTE À DILMA,  que também está no ar, não devem ser eliminadas, até mesmo porque as mesmas ameaças continuarão a ser replicadas em outros lugares, ad aeternum.

É preciso que elas continuem acessíveis, para que possam ser imediatamente identificados - basta fazer um print - pelos advogados de Lula e da Presidente da República, os indivíduos que estão ameaçando sua vida e sua integridade física, para que sejam denunciados, um por um, e judicialmente interpelados, processados e responsabilizados pela justiça.

Se isso tivesse sido feito, desde o início, nos últimos anos, com base em uma atitude de tolerância zero - (ver O PT, O PSDB E A ARTE DE CEVAR OS URUBUS) - a cada ataque, insulto, calúnia recebidos, como fazem aliás outros homens públicos e partidos - nem Lula, nem Dilma nem o PT estariam na situação em que se encontram do ponto de vista da opinião pública.

Quem cala, consente.

Seja qual for sua situação ou posição ideológica, quem é injustamente citado ou ameaçado na internet precisa aprender que na rede a responsabilidade direta e primária é a individual, de quem está fazendo a ameaça ou publicando caluniando terceiros, mesmo que sites e portais, ou redes como o Facebook possam eventualmente também ser processados, mais tarde, por permitir esse tipo de ação ou iniciativa.
"

16 de agosto de 2015

Jânio de Freitas (na Folha de São Paulo): a tentativa incansável - e antidemocrática - de derrubar o resultado eleitoral

As manifestações estão sendo bem menores do que o pretendido, mesmo que "as redes sociais amplifiquem e a mídia quintuplique" (vejam abaixo).


Janio de Freitas: O que está em jogo não é um mandato, mas a própria democracia que vinha se construindo
"“Isso é democracia”. Não é, não. Um dos componentes essenciais e inflexíveis da democracia é o respeito às regras que a instituem. As regras existem no Brasil, precisas e claras na Constituição, mas o respeito é negado onde e por quem mais deveria fortalecê-las. O que está sob ataque não é mandato algum, são as regras da democracia e, portanto, a própria democracia que se vinha construindo.

Não há disfarce capaz de encobrir o propósito difundido por falsos democratas instalados no Congresso e em meios de comunicação: reverter a decisão eleitoral para a Presidência sem respeitar as exigências e regras para tanto fixadas pela Constituição e pela democracia. Há mais de nove meses, a cada dia surge novo pretexto em busca de uma brecha –no Congresso, em um dos diferentes tribunais, nas ruas– na qual enfim prospere o intuito de derrubar o resultado eleitoral.

O regime democrático é tratado na Constituição como “cláusula pétrea”, que se pretende com solidez granítica. O que não significa ser impossível transgredi-lo. Mas significa que quem o faça ou tente fazê-lo comete crime. E quem o comete criminoso é de fato, haja ou não a condenação que assim o defina. Tal é a condição que muitos ostentam e outros tantos elaboram para si.

A pregação de parlamentares identificáveis como um núcleo de agitação e provocação atenta contra a democracia. A excitação de hostilidades que esses parlamentares propagam pelo país é indução de animosidade antidemocrática –sem que isso suscite reação alguma, o que é, por si mesmo, indício da precária condição da democracia e da Constituição.

O que se passa hoje na Câmara, como método e objetivos da atividade, não é próprio de Congresso de regime democrático. Em muitos sentidos, restaura a Câmara controlada e subserviente da ditadura. Em outros aspectos, assume presunções autoritárias, de típico teor antidemocrático, ao ameaçar até aprovações do Senado de punitivas suspensões da sua tramitação.

Afinal, um dos focos da corrupção é arrombado. Os procuradores e juízes do caso receberam tarefa de importância extraordinária. Mas não é garantido que estejam plenamente respeitados nessa tarefa os limites das regras democráticas. À parte condutas funcionais que não cabe considerar neste sobrevoo do momento do país, é notória no grupo, e dele difundida, uma incitação a ânimos não condizentes com investigações e justiça na democracia. Pôr-se como salvadores da pátria, a partir dos quais “o Brasil agora será outro”, não é só um equívoco da ingenuidade. É uma ameaça, senão já algumas práticas, de poderes e atitudes exacerbados que fogem às regras.

Um exemplo que recebeu tolerância incompatível com sua importância: difundir informações inverídicas e sensacionalistas à imprensa, e ao país, “para estimular mais informantes” –como feito e dito por um procurador–, não é ético nem democrático. É autopermissão abusiva. E incitação a ânimos públicos que já recebem das realidades circundantes o bastante para serem exaltados.

O espírito antidemocrático não é alheio nem ao Supremo Tribunal Federal. É nele que um juiz pode impedir a conclusão de um julgamento tão significativo como o financiamento das eleições dos governantes e congressistas. Ou seja, dos que determinam os destinos do país e de seus mais de 200 milhões habitantes. Se alguém achar que é deboche, não vale a pena contestar. Mas convém lembrar que é uma evidência perfeita da prepotência primária, apenas ilusoriamente culta, que sobreviveu muito bem à ruína do seu sistema escravocrata.

Movimentos de ocupações urbanas e rurais são acusados de violar a democracia. É engano. Ilegais, sim, mas não são democráticos nem antidemocráticos. Sequer estão incluídos na democracia, desprovidos que são, todos os padecentes de grandes desigualdades econômicas sociais, de meios democráticos para obter os direitos que a Constituição lhes destina.

E os jornais, a TV, as revistas, o rádio –na verdade, os jornalistas que os fazem– nesse país que concebe a democracia como uma bola, tanto a ser chutada sempre, como a oferecer grandes e efêmeras euforias? Agradeço à sogra de um jogador de futebol, Rosangela Lyra, que me dispensa de alguns desagrados. Disse ela, à Folha, das pequenas e iradas manifestações que organiza pela derrubada do resultado da eleição presidencial: “As redes sociais amplificam e a mídia quintuplica”. Entregou. Delação de dar inveja aos gatunos da Petrobras.

“Isso é democracia” como slogan de antidemocracia só indica que o Brasil ainda não é ou já não é democracia."

Fonte: Folha de São Paulo e Viomundo

14 de agosto de 2015

O Domingo e o Impeachment

Charge do Laerte
Aproxima-se o domingo "fatídico", que foi sendo alimentado ao longo do último mês no sentido de se dar força para um impeachment da Presidente, na verdade um golpe disfarçado. Um agosto desgosto.
Acontece que, de uma semana para cá, as coisas andaram esfriando para os paneleiros de plantão da Zona Sul e Higienópolis.
Sinais da FIESP, FIRJAN, Globo, Movimentos Sociais, Senado, STF, etc. começaram a colocar água na fervura.
O que aconteceu? Porque a mídia mudou o tom?
Dezenas de teses vem surgindo:
- A queda de Dilma já são favas contadas e a mídia já fez a sua parte, então se descola do movimento para não ser acusada mais uma vez de golpista.
- O encontro de Dilma com Obama foi a pá de cal. Obama avisou que um golpe agora iria atrasar o progresso do Brasil e da região por no mínimo 30 anos, devido à convulsões sociais. Obama não quer isso aqui na América do Sul.
- Os empresários mandaram baixar a bola porque vai sobrar pra todo mundo se Dilma cair, inclusive para eles.
- Senadores do PT avisaram para Globo mudar o tom, já que não iam controlar o que pode acontecer com a derrocada de Dilma e Lula.
- Globo preocupada com avanço das outras mídias propõe trégua, antes que a coisa complique mais.
- PSDB dividido entre alimentar o golpe ou apenas tentar fritar Dilma até 2018. Brigas pesadas entre Serra, Alckmin, FHC e Aécio.
- O impedimento de Dilma está por demais ligado ao Cunha e ninguém está querendo ficar do lado dele nesta altura do campeonato.
E por aí vai. Tem muito mais. Aguardemos domingo. Mas com certeza muitos irados estão ficando mais calmos, depois da "Nova Ordem Global", se é que me entendem. Interessante isso, né?!
Selecionei três artigos sobre o "instigante" tema, que reproduzo a seguir.

Dez razões que sepultam o golpe
Por Gisele Cittadino e Rogerio Dultra dos Santos, no blog Democracia e Conjuntura.
"A situação política no país assemelha-se a um intrincado jogo, cujas peças movem-se em várias direções sem que tenhamos, a priori, a capacidade de bem calcular os efeitos de cada um desses movimentos. Entretanto, existem em alguns deles fortes sinais do início do fim do frenesi golpista.
Há, hoje, a possibilidade de que a ameaça de impeachment tenha sido antes uma estratégia para o enfraquecimento do governo do que uma intenção concreta de ruptura institucional. Noves fora as tresloucadas pretensões presidenciais de Aécio Neves e sua trupe senatorial.
Vejamos as jogadas lançadas no tabuleiro nos últimos dias.
Elas indicam no geral que a instabilidade econômica causada pelo golpismo encontrou resistências acentuadas.
São pelo menos 10 as razões pelas quais se pode antever que o país não tem mais o clima para o malfadado e radical impeachment de agosto:
1) O crime de Cunha.
Eduardo Cunha conseguiu aprovar açodadamente as contas dos governos de Itamar Franco, FHC e Lula no plenário da Câmara dos Deputados.
Aparentemente limpou a pauta para votar – e talvez rejeitar – as contas do primeiro mandato de Dilma Rousseff, não sem antes criar novas despesas públicas.
Romero Jucá informa que o Senado Federal não será pautado pelos “delírios” que chegam da Câmara.
A verdade por trás desta notícia é que Eduardo Cunha levou diretamente à Câmara contas que, segundo o art. 166, §1 da Constituição, deveriam passar pela Comissão Mista antes de seguir em frente. Ou seja: ele cometeu uma grave violação do ordenamento constitucional e pode ser diretamente responsabilizado por isto;
2) O inimigo de Cunha.
Na noite da quinta-feira, dia 06, Dilma decidiu reconduzir o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, para um novo mandato de dois anos. Janot é o personagem contra quem Cunha declarou guerra. Janot recebeu uma votação expressiva no Ministério Público Federal e terá condição de colocar freio na caça às bruxas dos procuradores mais afoitos.
Mais. Janot tem o poder de denunciar o Presidente da Câmara dos Deputados ao STF – inclusive pela quebra de procedimento na votação das contas públicas (vide razão (1)).
A recondução de Janot, em tempo recorde, indica uma composição política central na contenção do golpe.
Como Dilma precisa da aprovação política do Presidente do Senado para o novo mandato de Janot acontecer politicamente sem atritos, isto significa de fato que Renan o aprovou. Numa reunião com Dilma nesta semana, Renan afirmou ter intenção de não atrasar a sabatina no Senado;
3) O parceiro de Dilma.
Renan Calheiros participa de um jantar “secreto” na casa de Tasso Jereissati, cujo objetivo é o de discutir a possibilidade do impeachment de Dilma, mas registra no Senado o compromisso, permitindo que o jantar se tornasse conhecido por todos.
Ao vazar publicamente a reunião dos golpistas para a qual foi convidado, Renan acenou para o governo que não é golpista. Tese confirmada pela movimentação descrita na razão (2).
Renan irá lutar pela aprovação das contas de Dilma Rousseff. Um movimento nesta direção foi a Senadora Rose Freitas (PMDB-ES) solicitar ao STF a anulação do ato de Eduardo Cunha de colocar as contas dos Ex-Presidentes na Câmara.
Base de Renan no Senado, Rose argumenta que a competência para a avaliação contábil é do Congresso Nacional e suspende a discussão das contas de Dilma por tempo indeterminado. O golpe por aí também não prospera;
4) O tarefeiro de Dilma.
A fala do Temer, chamando a oposição para a conciliação, parece ter sido mesmo articulada com o planalto, vide a fala do Mercadante (esta irritou a militância pelo tom entreguista, mas foi fundamental para indicar a parceria com o Temer). Jaques Wagner também defendeu o Vice-Presidente.
Temer chamou o apoio da FIESP, que chamou a FIRJAN. Ambas representam os interesses da indústria no país.
Divulgam uma nota pública que é, ao mesmo tempo, um resposta positiva ao pedido de Temer e uma crítica à irresponsabilidade de Eduardo Cunha que, para livrar-se da prisão, trabalha no sentido de inviabilizar a economia do país;
5) O “Ex”-Golpismo da mídia.
A Globo entendeu o recado da Indústria brasileira e o recado do Renan e no editorial desta sexta 07 fritou Eduardo Cunha em definitivo.
Este, junto com Collor (que chamou Janot de FDP), deverá ser processado pela PGR em 3, 2, 1…
A degola de EC foi, portanto, sacramentada oficialmente e passada em cartório.
Eduardo Cunha – uma ponta solta golpista – deverá ser “fuzilado” pela PGR (Janot), a despeito dos seus encontros com Merval Pereira na sede do Jornal O Globo.
Isto não significa que a Globo está de bem com o PT ou que desistiu de derrubar a Dilma. Apenas que foi freada por forças maiores. Pelo menos, no momento;
6) O malogro das panelas.
O “panelaço” foi um ridículo fiasco, com cara de iogurte estragado. Com o Alkmin fora do golpe, somente a banda podre do PSDB concorrerá ao dia 16 (leia-se Aécio, Aloysio Nunes e Serra – a segunda ponta solta do golpismo).
Esta parcela do PSDB desespera-se e assume uma postura histriônica, pedindo, também em nota pública, a convocação de novas eleições.
A Globo provavelmente fará uma cobertura mais discreta das eventuais manifestações (se fizer estardalhaço, o objetivo geral não será golpe, mas sangramento do governo);
7) O novo Ministério e a Oposição Judicial.
O novo ministério de Dilma terá, provavelmente, nomes de peso.
Um deles seria o Senador Roberto Requião (PMDB-PR), homem forte no Paraná da “Operação Lava-Jato”.
Outro ministro pode ser Ciro Gomes (PROS-CE), que recentemente se lançou candidato a presidente.
Talvez até o próprio Lula fosse ministeriável. Lula ganharia holofotes gratuitos, iniciaria sua campanha numa posição qualificada (especialmente na Defesa ou nas Relações Exteriores) e, com foro privilegiado, escaparia da sanha fascista da República do Paraná, ficando submetido exclusivamente ao STF.
A antecipação da campanha de 2018, entretanto, é um peso para se levar em consideração. Estar no governo Dilma, já combalido, pode prejudicar mais que ajudar o pré-candidato com maior envergadura.
De qualquer sorte, este movimento de grandes forças políticas em direção a ministérios estratégicos, como a Casa Civil, inclusive, pode colocar a “Operação Lava-Jato” em marcha lenta, já que seu teto terá sido José Dirceu. Mais uma vez;
8) O controle da malta.
O PMDB, com a provável dança de cadeiras nos ministérios, acalmará a sanha do baixo clero na Câmara.
As prebendas serão redistribuídas e os deputados órfãos de Eduardo Cunha voltarão a votar no cabresto, controlados em sua maioria pelos líderes governistas, como sempre fizeram;
9) A divulgação do recado.
A Rede Globo de televisão dá um destaque absolutamente inédito a Dilma Rousseff e de forma positiva, permitindo que um vídeo com a fala da Presidente seja transmitido por longos segundos no JN e no Jornal da Globo.
As organizações Globo indicam que entenderam o recado do mercado e retiram a agenda golpista da programação;
10) Ao fim e ao cabo, é a economia.
A economia dá sinais de recuperação. O natal de 2015 será gordo. E a Petrobras passará de 1.000.000 de barris por dia apesar do mimimi da oposição.
A Dilma poderá até fritar, mas o golpe, por enquanto, não prospera."
 
Onde foram parar os valentes jornalistas da Globo que defendiam o impeachment? 
Por Paulo Nogueira no Diário do Centro do Mundo em 12/08/2015

"Uma coisa eu preciso reconhecer na família Marinho: ela sabe dar ordens.

Nisso, é bem diferente da família Civita, que não consegue pedir um café para o mordomo.

Nem bem João Roberto Marinho disse aos senadores do PT que transmitiria a seus editores o que ouvira deles, o noticiário da Globo mudou consideravelmente.

Em todas as mídias.

O que João ouviu é o que todos já sabiam: que a cobertura da Globo vinha sendo escandalosamente enviesada contra o governo.

João prometeu aos senadores que iria avisá-los do diagnóstico prontamente.

Presumo, pelo que conheço da Globo, que ele mandou um email sintético, que é seu estilo, aos integrantes do Conedit, o Conselho Editorial.

Acabou.

No Jornal Nacional da sexta-feira passada, um milagre: a dupla aparição de Dilma e Lula em reportagens diferentes.

Há quanto tempo o JN não abria espaço duplo para coisas do PT? Uma eternidade.

Os jornalistas da Globo sabem que o preço da visibilidade é a submissão.

Ou o papismo.

Na biografia de Bial sobre Roberto Marinho, um episódio revelador é narrado.

O jornalista Evandro de Andrade estava conversando com Roberto Marinho sobre a possibilidade de chefiar o Globo.

Evandro, numa carta, garantiu a RM que era “papista”. O papa falou, acabou: passemos para o próximo assunto.

Imagine, apenas a título de especulação, que Ali Kamel se insurgisse e continuasse a acelerar enquanto os patrões pedem que se freie.

Quantas horas até ele ser removido? E alguém trataria de espalhar, nos corredores do poder na Globo, que Kamel foi vitimado pelo Ibope. Pegou, afinal, o Jornal Nacional com mais que o dobro da audiência atual.

Mas isso não vai acontecer, porque Kamel é papista. Você não faz carreira na Globo se não for.

A Globo freando, as demais empresas jornalísticas fizeram o mesmo, excetuada a Abril com a Veja.

Para a Veja, não há mais recuo possível. O estrago por anos de jornalismo criminoso é de tal monta que simplesmente não existe um caminho de volta.

Os atuais leitores – analfabetos políticos de classe média – debandariam. E os antigos jamais retornariam.

A Folha e o UOL, da família Frias, parecem ter também desistido de atear fogo. Todos os dias, na home do UOL, o blogueiro Josias de Souza decretava o fim do governo.

Procurei Josias hoje, na home, e não encontrei. Fui a seu blog, e encontrei um tom que nada tem a ver com a gritaria dos últimos meses.

A coragem dos colunistas e comentaristas da grande mídia vai até o exíguo limite de uma ordem patronal.

No Facebook, Eric Bretas, diretor de mídias digitais da Globo, disse que o editorial da Globo provava que jornalistas e donos não têm a mesma opinião.

Respondi que respeitaria os aloprados da Globo se eles, diante das novas instruções de JRM, continuassem a fazer o que vinham fazendo.

Claro que isso não aconteceu.

Certamente os papistas da Globo encontraram, como sempre, vários motivos para pensar exatamente igual aos donos."

O protesto de domingo morreu antes de nascer
Por Paulo Nogueira
"O protesto de domingo morreu, tecnicamente, antes de nascer.
A causa mortis foi a NOG, a Nova Ordem da Globo, aquela que tira formalmente o apoio ao golpe.
A Globo nunca entra num jogo se pode perder. Ela apoiou os golpistas de 64 porque a vitória era certa, garantida pelos militares e pelos americanos.
Agora, não. Ficou claro, depois de oito meses de desestabilização, que um golpe conflagraria o país, e os resultados para ela, Globo, poderiam ser catastróficos.
Tudo isso posto, significa que os idiotas úteis que vestiam camisas da CBF e iam para as ruas pedir a cabeça de Dilma se transformaram em idiotas inúteis.
Como foram artificialmente erguidos e promovidos, agora serão devolvidos a seu devido lugar.
Como esquecer o protesto de fevereiro, quando a Globo News anunciava a todo instante o número brutalmente mentiroso de participantes passado pela polícia de Alckmin?
Aquela era, aspas, e pausa para gargalhadas, a “festa da família brasileira”.
Um diretor da Globo chegou a convocar publicamente, no Facebook, as pessoas a irem para a rua para derrubar Dilma e seus 54 milhões de votos. (Um dos argumentos desse diretor era uma denúncia que ele lera, logo onde, na Veja, a maior fábrica de infâmias e mentiras da história da imprensa brasileira.)
Novas circunstâncias, nova cobertura.
Os protestos tenderão a ser coisa de lunáticos, gente como Lobão, Kim Kataguiri, Reinaldo Azevedo, Batman do Leblon, Bolsonaro e, à distância, Olavo de Carvalho.
Será o retorno à razão.
Você quer trocar o governo? A cada quatro anos há eleições exatamente para isso.
Democracia é assim.
Tirar um presidente eleito antes disso com base em uma centena de pretextos que se superam em cinismo e desonestidade é coisa de República das Bananas.
A revista America’s Quartely, que reflete o pensamento da elite de Washington, colocou isso exemplarmente num artigo poucos dias atrás.
Um golpe devolveria o Brasil a um triste passado em que a vontade do povo era atropelada.
E acabaria com a ideia, abraçada pelo mundo civilizado, de que emergiu no país, depois dos militares, um “novo respeito” pelas urnas.
A AQ falou também o óbvio. Caso vingue um impeachment absurdo e forçado como este, todo presidente brasileiro, daqui por diante, governará sob a sombra sinistra de ser removido a qualquer momento a despeito de vencer as eleições.
Quem quer isso?
Nem a Globo, depois de enxergar a realidade.
Só os analfabetos políticos que irão às ruas neste domingo, vestidos em seu uniforme da corrompidíssima CBF.
Para eles, o holofote se foi, e sem isso não são rigorosamente nada senão, repito, idiotas inúteis."

7 de agosto de 2015

Musa da Semana: Ronda Rousey

- Minha amiga, você já viu a lutadora, campeã de MMA, Ronda Rousey?
- O quê? MMA? Eu não vejo isso. Esporte masculino violento.
- É, mas as mulheres já são 40% nas academias especializadas.
- Ah, é? Devem estar querendo aprender a se defender dos homens então.
- Que é isso. Também não é assim...
- Independente disso essas mulheres que disputam essas lutas devem ser bem masculinizadas, com corpo feio e mal educadas.
- Olha o preconceito amiga. É verdade que tem esses bate-bocas antes das lutas. Isso faz parte do marketing.
- Essa Ronda deve ser horrível e por ser americana não deve nem ter ouvido falar no Brasil.
- Também está enganada nessa, caríssima amiga. A Ronda adora os lutadores brasileiros, adora o Brasil e a nossa caipirinha. E tem sido muito simpática com os fãs por aqui, apesar de ter ganho da brasileira que a desafiou. Já foi no Maracanã, no Corcovado, etc. Está de férias aqui.
- Mas não quero nem ver. Odeio mulher de corpo musculoso.
- Hummm... Melhor olhar essas fotos...









4 de agosto de 2015

A política hoje

Como disse em post anterior, minha gastrite está me obrigando a me afastar de temas políticos, depois de tanta luta a favor da distribuição de renda via ideias político/sociais.
O quadro atual de ditadura midiática via estado fundamentalista judiciário me soa como uma tragicomédia que periga levar todas as conquistas sociais à rodo. Triste fim se assim for.

“Até o final do ano, tentarão prender o Lula”: um depoimento exclusivo!
por Rodrigo Vianna

"A frase que dá título a esse texto não foi dita por um militante petista desvairado. Nem por um jornalista (como esse que escreve) afeito a teorias da conspiração.

Saiu da boca de um advogado paulistano, bem-sucedido, com sólida formação acadêmica (é também professor de Direito), sócio de um escritório na região da avenida Paulista.

Detalhe: ele votou em Aécio no ano passado, mas não disse a frase em tom de “comemoração”, mas de alerta.

A conversa aconteceu num encontro social privado, há alguns dias, antes portanto da prisão de José Dirceu. O advogado, a quem conheço há mais de 30 anos, tem na sua carteira de clientes alguns empreiteiros. Um deles está em prisão domiciliar, por causa da Lava-Jato, e algumas semanas atrás foi obrigado a depor algemado em Curitiba – como forma de pressão.

“Um homem de quase 60 anos, franzino, que não oferece nenhum risco físico às autoridades, foi obrigado a depor algemado durante várias horas, sob alegação de ameaça à segurança do delegado“, contou.

Prisões sem provas, pressões físicas e psicológicas. A Lava-Jato transita num fio da navalha muito perigoso. Já sabemos disso. Mas é impressionante ouvir quem acompanha o desenrolar dos fatos ali, bem ao lado dos investigados e dos algozes da PF e do Judiciário.

Experiente operador do Direito, minha fonte está impressionada com o grau de truculência de delegados, procuradores e do juiz Sérgio Moro. Perguntei a ele (com veia sempre “conspiratória”) quem seria a cabeça pensante a traçar o roteiro da Lava-Jato: “Moro me parece frágil, mal preparado, tropeçando nas palavras nas inquirições…”, eu disse.

E o advogado: “não se engane, ele pode não ser brilhante ao falar, mas o cérebro é ele. Moro se acha imbuído de uma santa missão, e vai seguir em frente, nem que pra isso tenha que destruir metade da República. Ele é uma personalidade perigosa para a democracia”.

Todos advogados que trabalham na Lava-Jato estão assustados. Mas quase todos (e agora a avaliação é minha) temem enfrentar abertamente Sergio Moro. O juiz de primeira instância – com suas soturnas camisas pretas (ôpa, Itália dos anos 20 e 30!) acompanhadas de gravatas também escuras – virou uma espécie de intocável. Montou uma operação que – mais do que respeitada – é temida por todos que atuam no Judiciário.

“É uma espécie de estado islâmico judicial, onde tudo é permitido; afinal há um objetivo final que é sagrado: combater a corrupção”.

Algumas delações premiadas já chegam prontas, feito matéria da “Veja”: primeiro o editor escreve, depois o repórter acha alguma coisa que corrobore a tese. “Eles trazem a delação e dizem ao preso: você assume isso aqui? Sabemos que você sabe, fica mais fácil pra você”.

Mas o que explicaria essa voracidade, voltada não contra todos os corruptos, mas contra o governo (PMDB e PT são os alvos, com o PSDB poupado)? Não haveria uma operação tucana, uma conexão com a mídia?

“Pode haver alianças, mas são circunstanciais. Moro é bem tratado pela Globo, e faz o jogo. Mas não pense que a Globo ou o PSDB controlam cada passo dele e de todos envolvidos na operação”, foram as palavras do advogado, entre um gole e outro de vinho.

Minha fonte, que votou em Aécio sob o argumento pragmático de que “o Brasil e a Dilma não vão aguentar o que vem por aí na Lava-Jato; se o Aécio ganhar, isso tudo estará pacificado” (foi essa, mais ou menos, a frase dele em outubro de 2014, quando nos reunimos num jantar a poucos dias do segundo turno), está convicto de que a guerra santa promovida por Moro tem um alvo: o ex-presidente Lula.

“O Lula ainda não é a bola da vez, mas é a cabeça que os meninos de Curitiba querem sangrando numa bandeja”, disse o advogado. Segundo ele, muitos réus foram indagados nas últimas semanas sobre o que sabiam do “peixe grande”.

A conversa que narro nesse post aconteceu durante um encontro com 6 ou 8 pessoas, em São Paulo. Um dos presentes, que não é advogado, indagou: “então, caminhamos para uma grave crise institucional?

“Não”, respondeu o advogado. “Não caminhamos. Já estamos em plena crise”.

E a prisão de Lula então é inevitável, dada a inação do PT e do governo?

“Avaliação política eu deixo por sua conta” [o advogado disfarça, mas é também um arguto observador político]. “O o que posso dizer é na seara jurídica:  posso apostar com você que até o fim do ano vão tentar prendê-lo; vai depender da postura do STJ e do STF nos HCs pendentes”.

Ou seja: Moro precisa ter certeza que não vai passar vergonha, mandando prender Lula, mas tendo sua decisão revogada em 24 horas, num tribunal superior.

“Quais seriam os próximos passos, antes do Lula?”

“Aí não é informação, mas especulação minha e de vários advogados que atuam na Lava-Jato. Não é segredo. Vão tentar prender o Dirceu ou o Palocci, primeiro, nas próximas semanas. Depois vem o Lula.”

Reparem, leitores. A conversa com esse advogado ocorreu na segunda quinzena de julho.

O penúltimo passo foi dado. Dirceu está preso.

Não há mais teoria conspiratória, pois.

Lembremos que Vargas, em 1954, estava na iminência de ser preso pela República do Galeão, e por isso tomou a medida extrema em 24 de agosto.

Espero que não caminhemos para o mesmo desfecho. Politicamente, Vargas salvou o trabalhismo com um tiro no peito. Foi o suicídio que salvou seu campo politico.

Dilma, até aqui, com sua inação, de certa forma faz o caminho inverso. Preserva-se pessoalmente, mas leva todo o campo político do lulismo e do trabalhismo para um suicídio político.

E Lula? A reação não pode mais levar semanas, ou meses.  Acordos “pelo alto” (com a banca e a elite emprersarial) não vão adiantar. Vargas era estancieiro, e foi pro cadafalso. Por que poupariam o metalúrgico nordestino?

Moro não vai parar. Ele é o estado islâmico judicial.

O advogado, minha fonte, fala que tentarão a prisão de Lula  “até o fim do ano”. Minha impressão é de que o relógio se acelerou.

Em 2015, o agosto terrível da política pode cair em agosto mesmo. Mas também pode cair em setembro ou outubro. Até lá, teremos um desfecho."

Xico Sá, Duvivier e a patrulha de direita
Por Kiko Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

"Xico Sá está apanhando nas redes sociais por um haicai (“viver é estouro/ sou mais Zé Dirceu/ q o tal do Mouro”) e alguns tuítes (“Não, não, nao, ñ me incomoda q o Psdb seja inimputável, o q me deixa puto é e q a justiça brasileira só veja um lado”, por exemplo).

Gregório Duvivier é chamado de esquerda caviar, comunista e petralha. No ano passado, chegou a ser agredido verbalmente num restaurante no Leblon. Um sujeito falou que ele deveria estar almoçando no bandejão, “já que gosta tanto de pobre”.

Jô Soares é um vendido e um cachorro que senta, deita e rola para Dilma. Uma manhã acordou com uma pichação pedindo sua cabeça no asfalto em frente a seu apartamento em Higienópolis.

Marieta Severo, ao discordar do discurso catastrofista invariavelmente pedestre de Faustão, foi acusada de viver às custas da Lei Rouanet.

Eu sou comunista. Você é comunista. Sua mãe, sua irmã e seu tio são comunistas.

A patrulha ideológica direitista é um fenômeno crescente no Brasil. O mesmo pessoal que vê a ditadura bolivariana debaixo da cama - a mesma ditadura bolivariana que, segundo uma lógica sinistra, manda prender Dirceu, do mesmo partido da ditadura bolivariana - não admite que qualquer pessoa desvie do pensamento único.

Se o sujeito não comunga da mesma visão de mundo, só pode ser por dinheiro, fora o desvio de conduta. Jamais por ideologia ou simpatia a outra causa.

Um dos que mais apontaram o dedo para os “inimigos”, recentemente, foi o dono do blog tucano Implicante, de um certo Gravataí Merengue, pseudônimo idiota de Fernando Gouvea. Gouvea recebia, no final das contas, 70 mil reais por mês do governo Alckmin para fazer esse papel.

Gente como Lobão adora reclamar que seus colegas são “paumolengas” por não embarcarem em sua cavalgada antipetista. Seus seguidores repetem a cantilena. Ora, por que deveriam? É obrigatório? Segundo quem?

De acordo com essas milícias, é crime ser de esquerda, especialmente se o cidadão ganha mais de dois salários mínimos - embora a Constituição assegure o direito de qualquer um crer no que quiser.

Por trás disso, há uma inversão de valores formidável. O artista, ou jornalista, ou engenheiro espacial que bate no governo é corajoso. Ora, vivemos num lugar onde um policial federal se orgulha publicamente de praticar tiro ao alvo com uma foto de Dilma e nada acontece - para ficar em apenas em um caso de “republicanismo”.

Liberdade de pensamento é algo proibitivo para quem vive nessa ilusão monomaníaca. O ex-comediante Danilo Gentili se diz indignado com o fato de seus pares não terem feito piadas com a declaração de Dilma sobre a mandioca (eis um tipo de humor refinado).

Ele, sim, se considera destemido. Agora, tirar um sarro de seu patrão Silvio Santos, nem pensar. Os Simpsons tripudiam com Murdoch, o dono da Fox, há anos.

Um clássico do horror e da ficção científica que serve para ilustrar esse momento é “Invasores de Corpos”. Numa cidade californiana, alienígenas criam clones de humanos, totalmente desprovidos de emoções. Ninguém move uma palha, até a situação ficar insustentável.

Don Siegel, o diretor da versão original, de 1965, fez uma alegoria da caça às bruxas do senador Joseph McCarthy e da omissão da sociedade diante de seus métodos totalitários. “Eu vi acontecer lentamente, ao invés de tudo de uma vez”, diz o herói, o médico Miles Bennel.

O neomacartismo vagabundo brasileiro viceja mais rápido do que se esperava."

31 de julho de 2015

Entre a briga política, monges e os primeiros e eternos amores


Ultimamente tenho conseguido colocar nos dois blogs (neste e no Impressões) uma média de um artigo semanal em cada um. Normalmente às sextas-feiras.
Já houve épocas melhores. Era só este blog, mas nós colocávamos - eu e o Felipe - até três temas por dia.
Aí houve uma paralisação devido à falta de tempo e aos poucos estamos retomando o ritmo. O que não quer dizer muita coisa.
Poderemos voltar a produzir profusamente ou dar outra parada, talvez até mais longa ou definitiva. Coisas dos nossos tempos.
Nossos 17 leitores já sabem disso e tem muitas outras leituras interessantes na grande rede. Se estamos aqui é porque gostamos e agradecemos a atenção. Embora nem sempre merecedores dela.
Hoje baixou aquele animal político e vim disposto a recordar os bons e difíceis tempos em que o blog assumiu a posição de defender a eleição de Lula e depois de Dilma. Retomar a temática de forma atual, das operações policialescas, de advogadas que abandonam casos, de estranhos presidentes das câmaras, da "alta" mídia mais suja que pau de galinheiro manipulando notícias, etc.
Mas mudei radicalmente de ideia quando comecei a escrever e um mal estar estomacal começou a remoer as entranhas.
Bem, resolvi então baixar o biorritmo. 
Talvez esteja precisando de um banco em frente a um lago com muito verde ao redor.
Falar do que então? Algo que me dê uma calma necessária neste momento.
Ultimamente ando com o objetivo de reler dois livros de origem oriental que li há muuuuitos anos. São eles "Autobiografia de um Iogue" e "O Livro Tibetano do Viver e Morrer". Resolvi então escrever sobre eles. Aí o problema: na verdade preciso retomá-los antes para relembrar tudo e só depois fazer uma resenha que mereça ser lida.
E aí... Não é que o acaso mais uma vez ajudou?! Não é que tenha descoberto um belo texto sobre os citados livros, isso ainda vai ficar para depois, mas dando uma passada nos escritos do escritor cubano Fabio Hernandez (já citado no blog) achei um artigo onde ele usa livros de monges para falar de outro tema para mim também muito interessante: o primeiro amor (e por conseguinte a paixão de forma geral).
E ele vai (da mesma forma) pelo caminho de dois livros "espirituais", embora não sejam esses que eu comentei.
Reproduzo parcialmente a sua deliciosa crônica, que pode ser conferida na integra aqui.
E fico devendo duas coisas: a retomada da briga política (se minha gastrite deixar) e o sentido da vida, via Oriente.
 
O Primeiro Amor
(...) "Agora confesso que esqueci por que falei em Sêneca e no esforço inútil despendido em leituras inúteis. Ah, lembrei. É que no esforço de seguir o romano genial eu passei a me concentrar em alguns autores, não numa infinidade. E tirei de minha vista a montanha de livros que me trazia tanta ansiedade. Entre as minhas poucas e constantes leituras estão dois escritores “espirituais”. Um deles é o monge católico Thomas Merton, já morto. O outro é o monge zen Thich Nhat Hanh, um vietnamita que ergueu uma comunidade budista num lugar retirado na França.

Citei ambos porque, em livros que escreveram, eles trataram de um assunto que é único, vital, indelevelmente marcante na vida de um homem: o primeiro amor. É quando descobrimos que não somos mais crianças. É quando descobrimos que existem outros prazeres além da bola de futebol e do videogame.

E é quando descobrimos também o quanto a alegria está conectada à tristeza. O quanto a euforia está próxima da angústia. Um telefone que toca com a voz de quem você deseja ouvir. E então é o êxtase. Um telefone que teima em ficar silencioso, cruelmente silencioso. E então é a agonia. Você é um antes do primeiro amor. E outro depois. Os beijos. O adeus.

(E então me ocorre aquela linda canção chamada Crying Game, que deu nome ao polêmico filme. “First there are kisses/Then there are sighs/And then before you know where you are/You’re saying goodbye”. O sentido é a fugacidade da paixão. A impermanência, como dizem os budistas. Quem sabe um dia o Mantraman me diga palavras de conforto em relação à revolta ingênua que sinto contra a impermanência).

Merton, em sua autobiografia, nota algo que eu nunca tinha pensado. Somos tão jovens, tão frágeis quando aparece pela primeira vez em nossa vida aquela onda avassaladora que é o primeiro amor. Tanto impacto e somos tão indefesos. Merton se apaixonou antes de virar monge.

Thich Nhat Hanh, num pequeno e belo livro chamado Cultivando a Mente de Amor, confessa a paixão que o tomou quando, jovem monge, conheceu uma monja. Ele diz que decidiu falar desse amor para ajudar outros monges que por acaso enfrentem a mesma situação.

Pelo lirismo inspirado, transcrevo um trecho em que Thich Nhat Hanh fala do objeto de seu amor: “O comportamento dela como monja era perfeito – a forma de se mover, de olhar, de falar. Ela era tranquila. Jamais dizia alguma coisa, a melhor que lhe perguntassem”. Mais adiante, ele compara seu amor a uma tempestade pela qual ela e ele tinham sido apanhados sem saber como. E também sem saber como escapar.

Num capítulo intitulado “A beleza da primavera”, Thich Nhat Hanh faz um convite ao leitor. “Por gentileza, pense no seu próprio primeiro amor”. Faça-o devagar, visualizando como aconteceu, em que lugar foi, o que lhe trouxe naquele momento. Relembre essa experiência e observe-a calma e profundamente, com compaixão e entendimento. Você descobrirá muitas coisas que não notou naquela ocasião”.

E então aceito o convite do monge zen. E penso nela. Nos olhos verdes. Na pele suave como um pêssego. No sorriso meigo e constante. No telefone que tocou e trazia a voz dela para dentro de minha casa e de meu coração. No vestido azul e amarelo que usou quando saímos pela primeira vez.

No primeiro beijo.

E então penso na tempestade (para usar a expressão de Thich Nhat Hanh) que se seguiu. Deus, que tempestade. Mas quanta poesia, quanto calor, quanto ensinamento se escondia naquela torrente de água ao mesmo tempo tão sofrida e tão gloriosa."
Por Fabio Hernandez

24 de julho de 2015

O pensamento de Alan Watts


Eu não conhecia o filósofo Alan Watts, até ver um pequeno vídeo de animação contendo uma de suas visões acerca da vida.
A bem da verdade não posso dizer que conheço ainda, uma vez que não li nenhum livro de sua autoria até o momento.
No entanto resolvi procurar mais algumas coisas dele, pois aguçou minha curiosidade.
Talvez a sua principal característica seja o de buscar traduzir - do Oriente para o Ocidente - visões milenares sobre a existência, diferentes de como a vemos por aqui.
Outros, procedentes sobretudo de filosofias budistas, taoistas e hinduístas, já fizeram isso, com a diferença que Watts era britânico e não oriental.
Divido com vocês um pouco do resumo de algumas de suas formas de analisar o nosso dia a dia. Mas isso é só uma pequena parcela de sua obra que merece ser conhecida e confrontada com o que estamos acostumados.

Wikipedia: "Alan Wilson Watts (Chislehurst, Inglaterra, 6 de Janeiro de 1915 — Baía de São Francisco, 16 de Novembro de 1973) foi um filósofo, escritor, orador e estudante de religião comparada britânico. Ficou conhecido como um intérprete e por popularizar filosofias da Ásia para o público ocidental.

Escreveu mais de vinte e cinco livros e muitos artigos sobre assuntos como identidade pessoal, a verdadeira natureza da realidade, alta consciência, sentido da vida, conceitos e imagens de Deus e a busca da felicidade. Existe uma reportagem e uma entrevista com Allan Watts, publicada no Brasil, com o título "Formar um novo Homem" na revista Planeta, número 08, de abril de 1973."





Mais um pouco do pensamento de Alan Watts:

"O sentido da vida é estar vivo. É tão claro, tão óbvio e tão simples. Mesmo assim, todo mundo não para de correr em pânico, como se fosse necessário conseguir alguma coisa além de si próprio."

“Nós vivemos em uma cultura totalmente hipnotizada pela ilusão de tempo, na qual o chamado presente é sentido como uma pequena linha entre o ‘todo poderoso’ passado causativo e o ‘absurdamente importante futuro’. Não temos presente. Nossa consciência está quase completamente preocupada com memórias e expectativas. Nós não percebemos que nunca houve, há, ou haverá qualquer tipo de experiência além da experiência do momento. 
Portanto, nós estamos fora de contato com a realidade. Nós confundimos o mundo como ele é falado, descrito, e mensurado com o mundo do modo que ele na verdade é. Nós estamos doentes com uma fascinação pelo uso de ferramentas de nomes, números, símbolos, sinais, conceitos e ideias.”

"O homem olha para o mundo exterior para buscar sua salvação; imagina que poderá encontrar felicidade ao possuir algumas de suas formas. Mas não poderá encontrar felicidade nessas formas se não a puder encontrar em sua própria mente, pois é a sua mente que faz as formas..."

"...a moralidade é valiosa quando for reconhecida como um meio para atingir um fim; é uma boa serva, mas um mestre terrível. Quando os homens a usam como serva, ela permite que se adaptem à sociedade, e que se misturem facilmente com seus companheiros e, mais especialmente, permite a liberdade para o desenvolvimento espiritual. Quando ela é o mestre, as pessoas tornam-se intolerantes e puras máquinas éticas convencionais."

"Quanto mais firmemente tentamos captar o momento, para manter uma sensação agradável ou definir algo de uma maneira que possa ser satisfatória para sempre, mais ilusório ele se torna. Costuma-se dizer que definir é matar. Se o vento parasse por um segundo para que pudéssemos capturá-lo, ele deixaria de ser vento. O mesmo é verdade em relação à vida. As coisas e os fatos estão perpetuamente se mudando e se movendo; não podemos reter o momento presente e fazê-lo ficar conosco; não podemos chamar de volta o passado ou manter para sempre uma sensação passageira de si. Se tentarmos fazê-lo, tudo o que teremos será uma recordação; a realidade não está mais lá e nenhuma satisfação pode ser encontrada nisso."



23 de julho de 2015

Nostalgia, por Luiz Carlos Maciel

Reproduzo a seguir um post que contém uma crônica de Luiz Carlos Maciel, chamada "Nostalgia".
Este post foi publicado aqui mesmo, em 06 de fevereiro de 2011 (o tempo passa rápido...).
O motivo porque eu resolvi repeti-lo vocês encontrarão em outro blog (Impressões), no post "Um intelectual brasileiro de 77 anos que procura trabalho".
Hoje o dia está frio e chuvoso, mas naquele fevereiro era verão e sol. As coisas mudam.

A Nostalgia, Segundo Luiz Carlos Maciel (originalmente editado em 2011)
O domingo amanheceu ensolarado. Belo dia.
Para quem gostar e tiver oportunidade, um bom dia para tomar um banho de mar (ou “banho de bar”). Desde que a praia não esteja tão lotada nem poluída. Piscina pode ser também uma boa opção.
Quem sabe dormir até mais tarde, fugir do calor, ler o jornal dominical, descansar... Para os religiosos, também dia de ir à Igreja.
Dei uma passada rápida aqui no blog porque precisava passar um mail. Não estava nos planos colocar post hoje. Aliás, verão, fim de semana, a assiduidade por parte dos leitores cai naturalmente, certo? Não! Me surpreendi ao verificar que 410 pessoas olharam o blog ontem. Eu e o Luiz Felipe agradecemos a atenção.
Mas - antes mesmo de tomar o café da manhã e depois dar uma passada na praia - o que devo colocar aqui no blog neste domingo?
Pois, não sei como e porque, me lembrei de uma pessoa, um cara muito especial. É em homenagem a ele este post dominical.

O gaúcho Luiz Carlos Maciel (nasceu em 1938 e em alguns de seus livros o Luiz aparece com s) é escritor, filósofo, jornalista (foi um dos fundadores do jornal “O Pasquim”), diretor, escritor, roteirista, crítico musical, etc.
Era chamado nos anos 1970 de “Papa da Contracultura” (ou “Cultura Underground”). Um grande Intelectual. Com I maiúsculo.
Faz tempo que não vejo ele nos jornais, TV, revistas, etc. Só sei que ele mora no Leblon. Mas sempre me lembro de alguns ensaios de sua autoria que li há muito tempo.
Com a Internet ficou mais fácil achar alguns de seus escritos (acho que todos os seus livros estão fora de catálogo) como este sobre ‘nostalgia’ que reproduzo abaixo.
Não sei se esse tipo de assunto interessa mais, neste dias corridos, sem muito tempo para pensar sobre a vida.
É de 1977, mas vai ser atual sempre (independente do interesse despertado). Só gostaria de saber se hoje em dia (com mais de 70 anos) ele mudaria alguma coisa.
É claro que poderíamos atualizar algumas frases, tipo: O que os Beatles, Tina Turner e Pink Floyd tem que o Justin Bieber, Lady Gaga e Restart não tem? : )

NOSTALGIA
Luiz Carlos Maciel (do livro “A Morte Organizada”)
"Dizem que há um clima geral de nostalgia em todo o mundo. De repente, como se tivéssemos ficado cansados das novidades incessantes dos últimos anos, estaríamos parando para lembrar. São numerosos os jornais e revistas, os articulistas e repórteres, que parecem estar tentando nos convencer de que a memória, afinal de contas, é bem mais excitante e divertida que a vida atual. O que tem Humphrey Bogart e Marilyn Monroe que Mick Jagger e Alice Cooper, a julgar por eles, não têm? É difícil saber, considerados apenas os chamados dados objetivos desses nomes e dos fenômenos mais amplos que eles representam. As coisas passam e o mundo muda — isto é tudo. Se, de alguma forma, nos prendemos ao que passou ou pretendemos, periodicamente, retornar a ele, isso deve ser naturalmente atribuído a uma poderosa força psicológica sobre a qual não parecemos ter, ainda, muita clareza. Por que o passado — e não o passado distante, mítico e incognoscível, mais aberto portanto à imaginação, mas um passado que vivemos — nos parece, de súbito, tão atraente e envolto em encanto?
A nostalgia, como fenômeno social, é o produto direto de um certo sentimento do mundo, que se pretende afirmar como dominante, típico de pessoas que ultrapassaram a metade provável de suas vidas. Vivemos sempre no passado ou no futuro; a desatenção nos desvia no momento presente para essas fantasias, sempre imprecisas mas exigentes, sugeridas pela memória e pela imaginação. Os jovens, por exemplo, em sua circunstância biológica, costumam viver o futuro: são, inteiramente, projeto e antecipação. Gostam de previsões, profecias e, mesmo, planos a longo alcance. A imaginação doentia, então, se projeta para diante. Na medida em que a vida passa, porém, o futuro se fecha, as fantasias se desmentem e a imaginação — cada vez mais doentia, pois em geral tentamos curar nossas doenças ingerindo doses cada vez mais altas dos venenos que as provocaram — procura pasto na memória. Frustradas as suas antecipações, o ego sente que está perdido e abandonado à insegurança fundamental da liberdade — que, aliás, só é angustiante em sua ótica deformada, sendo para o homem desperto, ao contrário, fonte de paz e equilíbrio psicológico. Volta-se, então para essas imagens obscuras da memória como se elas fornecessem um atestado da existência objetiva de algum paraíso e seguro que ele, o ego, pudesse dominar. As imagens obscuras, porém, são apenas imagens obscuras, não correspondendo a nenhuma realidade efetiva, e o sentimento que brota então é uma coisa morna e passiva, doce mas triste, aparentemente tranquilizadora mas mortal a que chamamos nostalgia.
A verificação prática é fácil. Todos os objetos da pretensa onda de nostalgia que, segundo certa imprensa, é uma moda atual, são lembranças dos anos cinqüenta, justamente a época em que as pessoas que, agora, estão na metade provável da vida, eram jovens curiosos e abertos ao futuro. O aparecimento de um sentimento nostálgico no mundo, nessa gente, indica, antes de mais nada, que estamos vivendo o momento histórico em que elas viram desmentidas as suas antecipações, frustrados os seus projetos e desmanchado o futuro fictício que elaboraram longamente nas cavernas secretas da imaginação. Por que a nostalgia não se satisfaz com um passado mais recente? Por que não ousa recuar a um passado mais remoto? Não: as explosões nostálgicas fixam-se num recuo de cerca de vinte anos, mais ou menos, ou seja, justamente o período intermediário entre a infância e a adolescência dos que estão nos trinta, nos quarenta, e suas atuais decepções. “Já temos um passado, meu amor”, diz Caetano Veloso em Saudosismo. Essa verificação existencial é o ponto inicial do processo: o passado reaparece a partir do esvaziamento do futuro. Os anos cinqüenta aparecem, imaginariamente, como a perspectiva perdida de um controle ingênuo da realidade, típico da infância e da adolescência — uma ilusão evanescente, é verdade, mas nossa primeira reação ao desamparo é o apego a ilusões — dolorosas ou agradáveis, não importa. Naturalmente, o que se introduz aqui, na vida de um indivíduo, é a própria velhice e a própria morte, disfarçadas nas cores suaves da memória. “Recordar é viver”, dizem as pessoas mais velhas, morrendo sempre mais um pouco — sabendo ou não —, na medida em que se fortalece o apego ao que passou. A nostalgia é uma espécie de nó psicológico. Ela obstrui a atenção ao momento presente, invertendo o sentido original de velhas aspirações — políticas, afetivas, existenciais, etc. Pode ser definida como o momento traiçoeiro de descoberta do passado, uma reversão psicológica de conseqüências mortais para a vida espiritual de qualquer indivíduo ou coletividade. Por isso, as épocas nostálgicas são sempre épocas de poucas perspectivas para o futuro. Quando a sombra das desilusões caem sobre ele, nossa sede insana por segurança e conforto, nossa moleza espiritual e nossa covardia procuram refúgio no passado. Esse sentimento do mundo aparece sempre quando a geração intermediária — sempre influente nos caminhos das coisas — se defronta, afinal, com uma perplexidade insuperável. Norman O. Brown já estudou o fenômeno da regressão psicanalítica em termos de uma nostalgia de uma Idade de Ouro perdida junto com a infância. Resta verificar a medida em que essa nostalgia serve a interesses ideológicos específicos de estagnação da vida que deveríamos permitir que se renovasse sempre. A nostalgia, de que tanto falam os jornais e revistas, não passa de um poderoso instrumento psicológico da Morte Organizada."

17 de julho de 2015

O morto-vivo

Havia programado escrever um texto light hoje no blog do amigo Felipe.
Mas, diante do programado pronunciamento de Eduardo Cunha daqui a pouco na TV e diante dos últimos acontecimentos resolvi postar este texto do jornalista Paulo Nogueira do Diário do Centro do Mundo. 
Não cabe aqui falar do passado de Cunha, nem de suas "convicções".
Hoje ele "rompeu" com o governo. Mas alguma vez o apoiou?
Segundo ele, governo, Ministério Público, STF, Polícia Federal, etc. o estão perseguindo devido à delação que envolveu o nome dele na Lava-Jato.
Até então ele apoiava a Lava-Jato. Enquanto afetasse apenas supostos aliados do governo. Agora ele diz que a operação é uma farsa. E contra-atacou criando CPIs e fazendo ameaças para o segundo semestre.
Só pergunto uma coisa: esse sujeito ainda tem condições de ser o presidente da Câmara? Se os nobres deputados já estão com a popularidade abalada, imaginem onde ela vai chegar depois das acusações de hoje ao presidente que eles elegeram...


Eduardo Cunha está morto e aqui estão as razões

"Sabe aquele lutador que cisca, cisca, cisca até que leva um golpe na pera e desaba?
É Eduardo Cunha.
O golpe foi o depoimento de Júlio Camargo.
A luta acabou para Eduardo Cunha. Ele está tão zonzo que não percebeu. É como se ele, ainda na lona, dissesse ao juiz: “Tá tudo bem. A que horas começa a luta?”
Se preferirem outra imagem, Cunha é um dead man walking, um morto que caminha, como os americanos chamam os detentos do corredor da morte.
Camargo contou, num vídeo eletrizante de uma hora, o que Eduardo Cunha fez para garantir uma propina de alguns milhões de dólares.
Cunha chamou-o depois de mentiroso. Mas quem vê o vídeo sabe muito bem quem é o mentiroso entre os dois.
Todas as peças se encaixam.
O método do achacamento, por exemplo. Cunha ia triturar a empresa devedora na Câmara se o dinheiro não lhe fosse dado.
Isso bate com uma investigação da Procuradoria Geral da República segundo a qual requerimentos na Câmara para investigar a empresa partiram, secretamente, de Cunha.
Funcionaria assim. Se o dinheiro fosse dado, o trabalho da Câmara não daria em nada. Se não fosse, bem, eis aí a arte do achaque e da chantagem.
Outro delator, o doleiro Alberto Youssef, também num vídeo tornado público, contribuiu para o desmascaramento de Cunha.
Youssef contou que um “pau mandado” de Cunha o vinha intimidando para não falar nada sobre o presidente da Câmara em sua delação.
As ameaças do “pau mandado” se dirigiam à família de Youssef.
Camargo também tocou nisso: o medo que sentia de que sua delação levasse a violências contra sua família.
Você ouve Camargo e Youssef e pensa que se trata do submundo da bandidagem, de organizações como o PCC.
Mas é o mundo de Eduardo Cunha.
Desesperado, ele tentou criar uma notícia para neutralizar o conteúdo devastador do depoimento de Camargo.
É aí que apareceu sua “ruptura” com o governo, como se ele em algum momento tivesse jogado a favor.
Alguns jornalistas embarcaram alegremente no blefe de Cunha. Diego Escosteguy, da Época, o Kim Kataguiri das redações, foi um deles.
Em sua conta no Twitter, ele anunciou, triunfal, o “furo” da ruptura. A notícia de fato importante passou a não valer nada: o vídeo histórico de Camargo. Foi o triunfo do rodapé.
Maus editores contribuem mais para o fim de revistas impressas do que a internet.
Qual o poder de Cunha numa guerra contra o governo?
Alguma coisa muito próxima de zero. Não há nada mais liquidado do que um chefe político liquidado.
Que lealdade alguém como ele, cercado do que há de pior em termos de caráter, pode esperar dos deputados que controlava agora que está numa encrenca pesada e já não tem nada a oferecer?
Um sinal disso veio quando o PMDB, em nota, avisou que ele falará em nome dele mesmo, no pronunciamento de rádio e tevê que ele programou para esta sexta.
Para a mídia, ele também já não serve para nada.
A mídia precisa de alguém que pelo menos pareça honesto para contrapor ao PT na campanha demagógica centrada na corrupção.
Depois do depoimento de Camargo, Eduardo Cunha já não serve para isso. Ele é o maior ícone da corrupção no Brasil.
Tudo aconteceu muito rápido para Cunha.
Da obscuridade aos sonhos presidenciais, foram poucos meses.
Agora, devolvido à áspera realidade, resta a ele torcer para escapar da cadeia."
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Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.