
Eis aqui um post que considero especial.
Cecília Meireles foi (e sempre será) uma das autoras mais líricas de nosso país.
Escritora, jornalista, professora, pintora, etc, deixou sua marca indelével em todas as pessoas de sensibilidade.
Nasceu no Rio em 1901 e faleceu em 1964.
Selecionamos nesta sexta-feira alguns poemas dela.
Além de músicas legais relacionadas.
Epigrama n. 2
És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo, e, para te medir, se inventaram as horas.
Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam, e um tempo despovoado e profundo, persiste.
Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe. E dentro de tudo.
Motivo
Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias no vento.
Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.
Sei que canto.
E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Cântico IV
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Canteiros (Música do Fagner baseada na obra de Cecília Meireles)
Quando penso em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento
Pode ser até manhã, cedo claro feito dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida.
Ou Isto Ou Aquilo
Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Algumas frases dela:
“Devíamos poder sonhar com as criaturas que nunca vimos e gostaríamos de ter visto…”
“Hoje desaprendo o que tinha aprendido até ontem e que amanhã recomeçarei a aprender.”
“Quanto mais me despedaço, mais fico inteira e serena.”
“Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.”
“Quantos lugares meu Deus, para viajar! Lugares, recordados ou apenas imaginados”
"A arte de amar é a mesma de ser poeta".
E, para complementar, algumas músicas.
Fagner gravou pelo menos duas músicas que dizem respeito à obra de Cecília Meireles.
A primeira - e mais famosa - é "Canteiros" que chegou a ter a a faixa retirada do disco em que foi lançada, bem como proibida a execução, por conta de disputas judiciais envolvendo herdeiros de Cecília. Acho que tudo se resolveu depois de alguns anos.
A segunda é "Motivos", essa sim musicalização de um poema por inteiro dela.
O terceiro video não tem nada a ver com Cecília Meireles. Mas a escolhi como homenagem aos poemas dela e a todos os poemas e escritos que tentam retratar e entender essa nossa complexa existência. Afinal a música é uma outra linguagem que no fundo tenta a mesma coisa...
É a bela instrumental "Pepperland" de autoria do compositor e produtor George Martin (chamado o "quinto Beatle") e inserida na trilha-sonora do desenho animado psicodélico "Yellow Submarine", projeto criado pelos Beatles e lançado em 1968.