18 de janeiro de 2016

O verão, a chuva, o tempo e os livros de saudades

Curioso que no chamado "alto-verão" (quer dizer, antigamente se chamava assim essa época de meados de janeiro) foi onde as temperaturas despencaram com a chegada das chuvas. Falo da Região Sudeste.
É a tal da "Convergência do Atlântico Sul". Ou qualquer outro nome que inventam a cada ano.
Assim, olho pela janela lateral da sala (não é do "quarto de dormir", como diria o Beto Guedes) nesta manhã de segunda-feira e vejo as gotas outonais que caem, ouço pássaros cantando na chuva - vai ver que o Fred Astaire está por ali também - e penso na praia a cinco minutos de distância mas que neste momento não me é tão convidativa. Além da chuva a temperatura está em 22ºC, quase Inverno. Para quem é do Rio.
Como ainda estou de férias restam-me outras coisas a fazer e que não são poucas.
Trouxe para o período de veraneio dois livros de Ruy Castro: o recém lançado "A Noite do Meu Bem - A História e as Histórias do Samba Canção" (anos 40 e 50) e "Chega de Saudade - A História e as Histórias da Bossa Nova" (anos 50 e 60). Ambos tem sua localização ambientada sobretudo na época de ouro de Copacabana, a Princesinha do Mar.
São livros musicais que pode-se ler ouvindo as canções que vão sendo citadas. Quem não tem os discos basta se conectar na Internet que acha tudo.
Mas o mais interessante são as histórias das pessoas, em conexão com os usos e costumes (i)morais(?) da época e do lugar. O Ruy tem essa capacidade de prender o leitor/ouvinte contando umas fofocas bem apimentadas e secretas. Quase secretas.
Fora os livros, tem os discos e filmes. E a rede na varanda. Se a chuva persistir. O que não é de todo mau.
Só assim para efetivamente descansar a mente e o corpo neste ano que vai exigir a ultrapassagem de muitos desafios para todos. Ou quase todos.
E ainda tem as redes sociais (que não são as da varanda), que eu tinha prometido não olhar em janeiro, mas que de vez em quando não resisto a uma passada rápida.
Foi numa dessas olhadas que me deparei com o artigo abaixo que uma amiga postou em um grupo do WhatsApp e que resolvi postar aqui, misturando alhos com bugalhos. Ou nem tanto.
Lendo livros de histórias dos anos 50 e 60 demonstro meu interesse em uma época em que era criança e confesso minha idade. Está aí a conexão.
Não cheguei aos 60 anos mas não estou tão distante disso. E, ao início deste Ano da Graça de 2016, me lembro que daqui a alguns meses estarei um pouco mais próximo desta barreira.
Mas, como diz o texto atribuído a antropóloga Mirian Goldenberg (e que ela garante que não foi ela que escreveu), quando chegar lá estarei apenas em uma nova faixa social, exclusiva do século XXI.
No mais, sigamos admirando a beleza das canções, dos lugares e das pessoas, como diz o (não tão) velho samba-canção - aqui na voz do internacional Dick Farney - sobre Copacabana.
E isso independe da época. Apesar do "Chega de Saudade", ela não tem idade e a nostalgia faz parte de nossa vida. Neste ponto não precisamos concordar em tudo que diz o texto a seguir.



Sexalescentes
"Se estivermos atentos, podemos notar que está surgindo uma nova faixa social, a das pessoas que estão em torno dos sessenta/setenta anos de idade, os sexalescentes-é a geração que rejeita a palavra “sexagenário”, porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer.
Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica – parecida com a que, em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.
Este novo grupo humano, que hoje ronda os sessenta/setenta, teve uma vida razoavelmente satisfatória.São homens e mulheres independentes, que trabalham há muitos anos e que
conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram, durante décadas, ao conceito de trabalho. Que procuraram e encontraram há muito a atividade de que mais gostavam e que com ela ganharam a vida.
Talvez seja por isso que se sentem realizados… Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram gozam plenamente cada dia sem medo do ócio ou solidão. Desfrutam a situação, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabe bem olhar para o mar sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro da janela de um 5.º andar….
Neste universo de pessoas saudáveis, curiosas e ativas, a mulher tem um papel destacado. Traz décadas de experiência de fazer a sua vontade, quando as suas mães só podiam obedecer, e de ocupar lugares na sociedade que as suas mães nem tinham sonhado ocupar.
Esta mulher sexalescente sobreviveu à bebedeira de poder que lhe deu o feminismo dos anos 60. Naqueles momentos da sua juventude em que eram tantas as mudanças, parou e refletiu sobre o que na realidade queria.
Algumas optaram por viver sozinhas, outras fizeram carreiras que sempre tinham sido exclusivamente para homens, outras escolheram ter filhos, outras não, foram jornalistas, atletas, juízas, médicas, diplomatas… Mas cada uma fez o que quis : reconheçamos que não foi fácil, e no entanto continuam a fazê-lo todos os dias.
Algumas coisas podem dar-se por adquiridas.
Por exemplo, não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos “sessenta/setenta”, homens e mulheres, lida com o computador como se o tivesse feito toda a vida. Escrevem aos filhos que estão longe e até se esquecem do velho telefone para contatar os amigos – mandam e-mails com as suas notícias, ideias e vivências.
De uma maneira geral estão satisfeitos com o seu estado civil e quando não estão, não se conformam e procuram mudá-lo. Raramente se desfazem em prantos senti mentais.
Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos. Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflete, toma nota, e parte para outra…
… Os homens não invejam a aparência das jovens estrelas do desporto, ou dos que ostentam um terno Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de um modelo. Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência.
Hoje, as pessoas na década dos sessenta/setenta, como tem sido seu costume ao longo da sua vida, estão estreando uma idade que não tem nome. Antes seriam velhos e agora já não o são. Hoje estão de boa saúde, física e mental, recordam a juventude mas sem nostalgias parvas, porque a juventude ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas.
Celebram o sol em cada manhã e sorriem para si próprios…Talvez por alguma secreta razão que só sabem e saberão os que chegam aos 60/70 no século XXI!"

4 comentários:

Oswaldo Antunes disse...

Olá Marcos.
Sempre fico atento para não perder seus textos aqui no blog do Felipe Muniz ou no outro, o Impressões.
Eu já li Chega de Saudade, agora através de sua dica vou comprar A noite do meu bem. Ruy Castro é o melhor do país em biografias.
Valeu!

Anônimo disse...

Excelente Marquinho!

Carlos Ferreira disse...

"Saudade - Palavra única....."

Estou escrevendo o livro "Saudade..."

- Se se você já contribuiu, enviando seu depoimento, sua saudade, eu agradeço.

- Se não, eu estou aguardando a sua valorosa contribuição.

Para descrever "Saudade" não há uma regra, norma ou padrão. Pode ser a "Saudade" de alguém, algum familiar ou amigo. Pode ser algo que existia e não existe mais ou foi modificado em sua cidade. Enfim, Saudade, é "Saudade" e cada um tem a sua!

Exemplos de saudades já recebidas e que irão para o livro:

Eu tenho saudades dos...
"Domingos na cidade de Pingo D'água, de manhã ajudávamos a podar o campo com trator e roçadeira, aquele cheiro da grama cortada ainda ficou até hoje, e é só passar perto de alguém podando um jardim e a lembrança vem na hora, e a tarde era hora de dar espetáculo com a camisa do Juping no campo que cuidamos com muito carinho."
Adilson Begatti- Cronista Esportivo e Metalúrgico
Coronel Fabriciano-MG

Eu tenho saudades do...
"Do tempo em que a praça da cidade tinha espaço para as crianças ...lago com peixinhos. Os "coquinhos" caiam pelo chão e as crianças se divertiam tentando abrí-los para comer. O espaço de areia era disputado e ninguém se importava em sujar os pés...não se ouvia os gritos das mães desesperadas e irritadas pelos filhos que insistiam em gastar dinheiro no "pula-pula". A diversão era interminável e gratuita."
Ana Karina Veiga - Jornalista - Professora e Estudante de Direito
Santos Dumont-MG

Eu tenho saudades do...
"Bonde em Campinas (SP), um veículo totalmente aberto, um convite pra gente sentir a brisa no rosto. E os cobradores, então! Dobravam o dinheiro de forma vertical e o colocada entre os dedos. Era o maior barato. Pena que em minha cidade eles pararam de circular em 1969, deixando muita saudade!"
Ariovaldo Izac - Cronista Esportivo
Campinas - SP

Eu tenho saudade dos...
"Bailes de carnaval nos clubes da cidade, na década de 1980, onde a diversão era muito mais sadia.Também tenho muita saudade quando eu apresentava bailes nos clubes de Juiz de Fora e cidades vizinhas. Saudade da eterna rádio Mundial 860, onde sempre buscava os novos hits para tocar no meu programa radiofônico. Bons tempos..."
Carlos Augusto de Oliveira (Guto) - Radialista
Juiz de Fora-MG

Eu tenho saudade da...
"Velha 'maria fumaça', aquele trem de ferro que soltava fumaça e à noite enfeitava o céu com fagulhas, coisa muito linda. O apito da velha "12" também me dá uma grande saudade. Eu morava em Uruçuca, na Bahia e viajava para Itabuna naquele trem, que "morrendo" nas ladeiras, mas subindo cansado, ele chegava lá. Muito lindo!".
Odoaldo Vasconcelos Passos - Economista
(Belém-PA)

Eu tenho saudade de...
"Em Pirapora, minha terra natal, dos meios de transportes: o trem de Pirapora para Corinto, Montes Claros e Belo Horizonte bem como os vapores de Pirapora até Juazeiro, na Bahia e Petrolina, em Pernambuco".
Paulo Roberto Caldeira Brant - Comentarista Esportivo
Poços de Caldas - MG

Eu tenho saudade das...
"Partidas de futebol que o Santos Futebol Clube, do bairro Floresta, realizava no campo da Fábrica de Tecidos São João Evangelista e que a família Carbogim era base do time, com Zé Alemão, Gabriel e Rafael, além de meu sobrinho Flávio, como mascote"
Miguel Carbogim - in memoriam

Att,
Carlos Ferreira
Juiz de Fora-MG
carlosferreirajf@gmail.com
www.carlosferreirajf.blogspot.com
https://www.facebook.com/carlosferreirajf


VEM AÍ...
O Portal MULTIMÍDIA...

Marcos Oliveira disse...

Parabéns pela iniciativa e obrigado pelo convite Carlos (extensivo a todos os leitores)!