12 de maio de 2016

Social Engineering, Estratégias Semióticas, Hybrid Warfare e o Impeachement

Agora que o processo de impeachment é fato consumado nos cabe aqui, pelo menos, registrar para a história o que sabemos do que ocorreu. 
Futuras gerações poderão então constatar as novas estratégias de controle amplo, geral e irrestrito da opinião pública.
O texto abaixo é longo mas fica para a posteridade como um alerta para "se vacinarem" e, sabendo como funciona, manterem no seu próprio controle os seus corações e as suas mentes. Obviamente não falo para as classes sociais designadas como AAA.
Se a história até hoje tem sido escrita pelos "vencedores", temos agora a oportunidade, com a Internet, de mostrar ao futuro a outra versão dos fatos. Se ela será considerada a verdadeira não sabemos. Mas, também pelo menos, será um ponto de reflexão e análise para situações futuras que tendem a se repetir, com outras estratégias.
O que é chamado genericamente no exterior como "golpe frio" ou "golpe branco" (referência à cor e ao frio da neve), tem toda uma longa estratégia por trás, o que de fato sempre ocorreu. 
As formas é que vão se sofisticando, se adaptando aos novos tempos. 
Mas não modifica o resultado: a defesa dos interesses dos que sempre estiveram no topo da pirâmide do poder (econômico) nacional e internacional. Basta ver a história de cada um dos senadores que defenderam ontem o impeachement.
E que não são os mesmos interesses dos mais necessitados deste país. Isso sempre foi claro.
Em 2014, depois de anos de trabalho, um governo brasileiro - preocupado com os mais desvalidos da sociedade: a base da pirâmide - conseguiu finalmente retirar o Brasil do Mapa da Fome da ONU (fato devidamente escamoteado pela imprensa nativa por ser ano de eleições, mas que foi considerado no exterior um dos maiores feitos sociais de um governo democrático em todos os tempos). A imensa dívida social do nosso país estava, pelo menos parcialmente, quitada.
Rezo para que daqui a algum tempo a ONU não nos comunique que voltamos a fazer parte dele.

P.S. para melhor compreensão do texto abaixo: 
- Semiótica: A semiótica é o estudo dos símbolos e da semiose, que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação. Vejam mais aqui.
- Guerra Híbrida: Confira seu significado e amplitude aqui.
- Social Engineering (como a citada Hybrid Warfare): Engenharia da formação da opinião pública. Vejam abaixo.
Marcos Oliveira.

"Bombas" Semióticas, ligações perigosas e as oportunidades perdidas
Por Wilson Roberto Vieira Ferreira em Cinegnose
"Com o impeachment da presidenta Dilma aproxima-se o desfecho de uma campanha iniciada há dez anos com as denúncias do mensalão. Mas em 2013 teve uma virada que acelerou o processo: a nova estratégia semiótica de engenharia de opinião pública com a implementação no Brasil da “guerra virtual” e da “social engineering”. Naquele ano, a grande mídia brasileira levou algum tempo para fazer a ficha cair, acostumada que estava com velhas estratégias hipodérmicas dos tempos do IPES-IBAD nos anos 1960 - surgia no País a "primavera brasileira" com manifestações tomando as ruas. A multipolarização criada pelos BRICS forçou os EUA a implementar estratégias resultantes de uma longa tradição acadêmica de pesquisas sobre engenharia social naquele país: a Mass Communication Research de Lazarsfeld, Agenda Setting de McCombs e Shaw e as pesquisas em “ações não violentas” do cientista político Gene Sharp. Logo a grande mídia brasileira entrou em sintonia com a geopolítica dos EUA ao criar as “bombas semióticas” a partir da matéria-prima das manifestações que começaram por “apenas” 20 centavos.

O ônibus da Linha 1 do Festival Tomorrowland saiu lotado do Sambódromo de São Paulo levando jovens adeptos da música eletrônica para o evento na cidade de Itu. No meio de caminho, começou uma discussão entre os animados passageiros sobre o impeachment da presidenta Dilma e a legitimidade do vice Michel Temer: “Se pelo menos ele fizer alguma coisa para tirar o País do buraco, já vai estar valendo!”, disse alguém mais exaltado.

Esse é o clima de opinião resultante do bombardeio sistemático e diário de bombas semióticas pela grande mídia nos últimos três anos, desde a “primavera brasileira” de 2013 – a série de manifestações de rua que tão inesperadamente como surgiram, também desapareceram.

Uma estranha percepção de “buraco” em que o País estaria metido expressada por aquele jovem,  apesar de todos naquele ônibus estarem rumando para um evento da cena eletrônica mundial onde uma latinha de Skol Beat ou uma garrafinha de água custavam dez reais, unindo tanto jovens da elite sócio-econômica como remediados egressos da chamada Classe C e os chamados “cibermanos” – jovens de regiões urbanas periféricas fãs da música eletrônica.

Em plena explosão das manifestações nas ruas em 2013 e a  extensiva cobertura midiática, esse blog Cinegnose iniciou a série de análises do que chamamos de “bombas semióticas”, procurando mapeá-las e, através de uma engenharia reversa, entender o mecanismo de funcionamento e as ondas de choque na opinião pública em cada detonação – sobre a série clique aqui.

Naquela oportunidade percebemos um elemento novo entrando em cena: uma nova estratégia semiótica, bem diferente das anteriores fundamentadas em longas “suítes” jornalísticas como “caos aéreo”, “mensalão”, “gripe suína”, “o escândalo do dossiê”, o “escândalo dos aloprados” etc. Estratégia hipodérmica de simples repetição onde articulistas, âncoras de telejornais, editorialistas e colunistas martelavam a pauta tentando formar a opinião pública.

Das estratégias hipodérmicas dos anos 1960 às bombas semiótica do século XXI

"Bombas semióticas" versus "estratégia hipodérmica"

Essa estratégia era ainda tributária das velhas táticas comportamentais (repetir até convencer) do antigo IPES-IBAD (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais e Instituto para Ação Democrática) onde de 1962 a 1964 desestabilizou o governo João Goulart através de massiva propaganda no cinema, TV e mídia impressa além da ação direta por meio de rede suprapartidária que barrava qualquer projeto do governo no Congresso. Mobilizou a opinião pública para torna-la receptiva ao Golpe Militar que viria mais tarde.

Se a estratégia semiótica hipodérmica funcionou nos anos 1960 (épocas mais “duras” dentro da polarização da Guerra Fria), agora no século XXI já apresentava sinais de que o prazo de validade tinha terminado – principalmente num contexto de multipolarização com o surgimento dos BRICS e globalização econômica.

De nada adiantava a repetição diária de sucessivos escândalos e crises nos governos petistas nas primeiras páginas dos jornais diários e escaladas de telejornais: Lula não só foi reeleito como fez seu sucessor que ainda seria reeleito, para desespero dos “aquários” das redações da grande imprensa.

A “primavera brasileira” de 2013 iniciou uma nova estratégia semiótica tão diferente e sofisticada que muitos formadores de opinião da grande imprensa levaram algum tempo para fazer a ficha cair – por exemplo, Arnaldo Jabor vociferava na TV Globo que as manifestações nas ruas eram “uma grande ignorância política misturado com rancor sem rumo”.

Foi o início de uma nova estratégia semiótica sofisticada demais para ter sido planejada pela grande mídia brasileira: a engenharia de opinião pública ou, como alguns analistas definem, a chamada “Guerra Híbrida” – Hybrid Warfare.

Embora diferentes “primaveras” estivessem pipocando pelo planeta (árabe, egípcia, ucraniana etc.), a vetusta mídia brasileira ainda acreditava que tudo era por causa dos 20 centavos de aumento nas tarifas de ônibus. Houve um gap de alguns dias, mas logo a grande mídia nacional entrou em consonância com a nova tática planejada bem longe daqui e que não é assim tão nova.

Alguns dos pais americanos da Social Engineering e das Hybrid Warfares

Ligações Perigosas

Aqui começam evidências de ligações perigosas entre as origens das diversas “primaveras” nacionais pelo mundo e o know how norte-americano iniciado a partir das pesquisas acadêmicas como a Mass Communication Research de Paul Lazarsfeld nos anos 1940 na Universidade de Stanford e as pesquisas em Agenda Setting de Donald Shaw e Max McCombs (Universidades de Virgínia e Texas) até chegar à aplicação política direta:

(a) A Social Engineering: coordenação de front groups (ONGs), spin doctors (técnicos de comunicação a serviço de partidos e lobbies) e paid experts (profissionais de diversas áreas que se tornam informações de pauta privilegiados para a grande imprensa) – articulados e sempre disponíveis para fornecer informações de primeira mão para a mídia - veja abaixo o fluxograma de uma ação de engenharia de opinião pública;

Fonte: HOWARD, Martin. "We Know What
You Want". Disinformation Books, 2005

(b) Ação Direta: táticas de promoção de “ação não violenta” (mobilização através de blogs, redes sociais, música, arte, táticas de não-colaboração, ocupações etc.) em conflitos ao redor do mundo a partir de pesquisas do cientista político Gene Sharp (Universidade do Estado de Ohio e Instituto Albert Einstein) financiadas pela Fundação Ford. Cursos baseados em suas técnicas ocorrem atualmente eu Universidades como Yale e na Embaixada dos EUA. O próprio juiz Sérgio Moro, que conduz a Operação Lava Jato, participou em 2007 de um curso no Departamento de Estado nos EUA de formação de Novas Lideranças;

(c) Black blocs (estranhos personagens que tão inesperadamente como apareceram também sumiram): na “primavera brasileira” foram financiados por ONGs ligadas a "causas ambientais" (sobre isso clique aqui) que costumavam depredar lugares escolhidos a dedo como, por exemplo, no episódio de uma concessionária da Caltabiano de veículos de luxo em São Paulo: revenda controlada pelo grupo americano McLarty cujo chefe, Thomas McLarty, foi Chefe da Casa Civil do Presidente Clinton. Ou então depredavam os clássicos estabelecimentos de grandes marcas (MacDonald’s, bancos etc.) para renderem fotos e vídeos impactantes para a grande mídia brasileira. Quer dizer, depois que a ficha já tinha caído nos “aquários” das redações e perceberam a intencionalidade por trás de todas essas ações “espontâneas”.

Os "estranhos" Black Blocs que surgiram do nada e desapareceram em seguida
A única semelhança com a estratégia de intervenção semiótica do IPES-IBAD nos anos 1960 foi o apoio logístico norte-americano (know how + apoio financeiro). Agora nesse século a criação de revoluções (ou “primaveras”) graças às táticas de social engineering não opera mais com o estardalhaço da massificação, mas agora com viralização através de bombas cirúrgicas e pontuais: as bombas semióticas.

Enquanto na massificação temos um emissor que repete informações para milhões de receptores, na viralização todos são ao mesmo tempo emissores e receptores quando repercutem as ondas de choque das explosões das bombas semióticas.

Oportunidades perdidas

Essas bombas não visam persuasão ou convencimento político partidário e/ou ideológico (ao contrário dos anos 1960 dominado pela doutrinação ideológica anti-comunista), mas através da sedução e percepção produzir um “clima de opinião” – a irresistível sensação de que estamos todos num “buraco” tal como o animado grupo que ia para o Tomorrowland percebia a realidade brasileira. As bombas semióticas são verdadeiras bombas cognitivas.

Mas a sequência das bombas semióticas detonadas pela grande mídia (cuja matéria-prima estavam nas manifestações) poderia ter se transformado em guerrilha semiótica – ataques e contra-ataques. Acabou se convertendo em massacre onde só um lado disparava e o outro (Governo Federal e PT) apenas tilintava como as bolinhas metálicas de um fliperama num “efeito pinball”, reagindo timidamente com notas para a imprensa.

A armação e detonação das bombas mostrou seu lado frágil com acidentes como os episódios “tem alemão no campus” (clique aqui) e “o falso candidato do Enem” (clique aqui) onde a ansiedade de repórteres em cumprir a pauta pré-fixada pelos “aquários” das redações criaram situações engraçadas.


Fossem bem aproveitadas, poderiam facilmente ser exploradas em táticas de “trolagem” para desmoralizar a grande imprensa tal como fizeram manifestantes em Lisboa para furar o bloqueio midiático a favor das medidas austeras da Troika (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Européia): um grupo simulou estar se manifestando a favor da Troika, atraindo a atenção de ávidos repórteres loucos para reforçar suas pautas pré-definidas. Diante de câmeras ao vivo gritaram “Que se lixe a Troika!” diante de confusos jornalistas.

Hoje, o clima de opinião de “buraco”, se não legitima, certamente tornam “críveis” ou “fatos consumados” o golpe do impeachment e o seletivo combate à corrupção da Operação Lava Jato, assim como a histeria anti-comunista embalou o Golpe Militar de 1964 e o clima de opinião da “última bala na agulha” legitimou o confisco da poupança pelo Plano Collor em 1990 para conter a hiperinflação.

Mas o que mais surpreende em toda essa história é como a nova estratégia semiótica geopolítica norte-americana (Guerra Híbrida + Social Engineering) pegou um governo supostamente de esquerda totalmente rendido. Principalmente porque muitos dos seus membros militaram sob a repressão da ditadura militar e conhecem muito bem até onde chegam as estratégias geopolíticas dos EUA.

Talvez o episódio narrado por Roberto Requião (PMDB-PR) explique muita coisa. No primeiro mandato de Lula, Requião foi ao encontro do presidente e relatou o que tinha feito no Paraná: acabou com a verba publicitária e investiu tudo na TV Educativa do Estado. Lula teria se animado com a ideia e passou a bola para José Dirceu, na época ministro da Casa Civil. “Mas Requião, o Governo já tem TV”, interrompeu Dirceu. “Mas que TV, Zé?”, retrucou Requião. Ao que o então ministro respondeu: “A Globo, Requião”.

Parece que ingenuamente Dirceu acreditava que a mídia nativa fosse na contra-mão da geopolítica internacional dos EUA de florescer “primaveras” nos países membros dos BRICS."

6 de maio de 2016

Para reflexão: 7 a 1! Para quem?

Bem, todos os segmentos políticos tem se manifestado.
Até demais.
Nesta festa da democracia brasileira...
Ou será o quinto dos infernos das manobras políticas / midiáticas / jurídicas que tem se disfarçado de democracia e feito corações e mentes de inocentes úteis?
O jogo está ganho para o vice que assume dia 12 de maio? Depende do que ele conseguir viabilizar em seu "governo", caso assuma.
Diríamos que, no mínimo, os trabalhadores e os mais pobres tem com o que se preocupar
Vamos ver o que nos diz o Juka Kfouri.

"Listamos sete (dos vários) projetos de lei prejudiciais aos trabalhadores que, num governo Temer, vão ter mais chance do que nunca de serem aprovados - sem ninguém para vetá-los na reta final."

18 de abril de 2016

A multa estratosférica e a defesa nacional

Além do circo montado ontem no Congresso - que está sendo criticado por todo o mundo civilizado - tem mais coisas ruins acontecendo no nosso Brasil.

A "multa-bomba" de 7 bilhões
"Finalmente, depois de meses de pressão desumana, gestapiana, sobre o empresário Marcelo Odebrecht, o juiz Sérgio Moro levou-o a julgamento, condenando-o – baseado não em provas de sua participação direta, mas na suposição condicional de que um empresário que comanda uma holding com mais de 180 mil funcionários e que opera em mais de 20 países tem a obrigação de saber de tudo que ocorre nas dezenas de empresas que a compõem – a 19 anos e quatro meses de prisão.

Não satisfeito com a pena, e com a chantagem, que prossegue – já que o objetivo é quebrar a moral do réu – um dos poucos que não se dobraram à prepotência e ao arbítrio – com o aceno ao preso da possibilidade de “fazer delação premiada a qualquer momento”, os responsáveis pela Lava-Jato, na impossibilidade de provarem propinas e desvios, ou a existência de superfaturamento da ordem dos bilhões de reais alardeados aos quatro ventos desde o princípio da operação, pretendem impor ao grupo Odebrecht uma estratosférica multa “civil” que pode chegar a R$ 7 bilhões – mais de 12 vezes o lucro da empresa em 2014 – que, pela sua magnitude, se cobrada for, deverá levá-lo à falência, ou à paralisação destrutiva, leia-se sucateamento, de dezenas de obras e de projetos, a maior parte deles essenciais, estratégicos, para o futuro do Brasil nos próximos anos.

Com a imposição dessa multa, absolutamente desproporcional, da ordem de 30 vezes as quantias que a sentença afirma terem sido pagas em propina pela Odebrecht, por meio de subsidiárias situadas no exterior, a corruptos da Petrobras que já estão, paradoxalmente, soltos, o juiz Sérgio Moro – e seus colegas do Ministério Público de uma operação que deveria se chamar “Destrói a Jato” – prova que não lhe importam, em nefasto efeito cascata, nem as dezenas de milhares de empregos que ainda serão eliminados pelo grupo Odebrecht, no Brasil e no exterior, nem a quebra de milhares de acionistas e fornecedores do grupo, nem a paralisação das obras com que a empresa se encontra envolvida neste momento, nem o futuro, por exemplo, de projetos de extrema importância para a defesa nacional, como os submarinos convencionais e o submarino nuclear brasileiro que estão sendo fabricados pela Odebrecht em parceria com a DCNS francesa, ou o míssil ar-ar A-Darter, que está sendo construído por sua controlada Mectron, em conjunto com a Denel sul-africana, além de outros produtos como softwares seguros de comunicação estratégica, radares aéreos para os caças AMX e produtos espaciais.

Considerando-se que se trata de uma decisão meramente punitiva, ao fazer isso o juiz Moro age, no comando da Operação Lava Jato, como agiria o líder de uma tropa de sabotadores estrangeiros que colocasse, diretamente, com essa sanção – e uma tremenda carga de irresponsabilidade estratégica e social – centenas de quilos de explosivos plásticos no casco desses submarinos, ou nos laboratórios onde ficam os protótipos desse míssil, sem o qual ficarão inermes os 36 aviões caça Gripen NG-BR que estão sendo desenvolvidos pelo Brasil com a Saab sueca.

Que não tenha ele a ilusão de que essa sua sanha destrutiva esteja agradando às centenas de técnicos envolvidos com esses projetos, ou aos almirantes da Marinha e brigadeiros da Aeronáutica que, depois de esperar décadas pela aprovação desses programas, estão vendo-os sofrer a ameaça de serem destruídos técnica e financeiramente de um dia para o outro.

Como um inútil, estúpido, sacrifício, um absurdo e estéril tributo da Nação – chantageada e manipulada por uma parte antinacional da mídia, que não tem o menor compromisso com o futuro do país – a ser realizado no altar da vaidade de quem parece pretender colocar toda a República de joelhos, até que alguém assuma a responsabilidade de impor, com determinação, bom senso e respeito à Lei e à Constituição Federal, limites à sua atuação e à implacável, imparável, destruição, de alguns dos principais projetos e empresas nacionais.

Enquanto isso, para ridículo do país e divertimento de nossos concorrentes externos, nos congressos, nos governos, na área de inteligência, nas forças armadas de outros países, milhares de tupiniquins vibram, nos bares, na conversinha fiada do escritório, nos comentários que agridem e insultam a inteligência nas redes sociais, com a destruição de um dos principais grupos empresariais do Brasil, deleitando-se com a perda de negócios e empregos, e com a sabotagem e incompreensível inviabilização de algumas de nossas maiores obras de engenharia e de defesa, mergulhados em uma orgia de desinformação, hipocrisia, manipulação e mediocridade.

Mesmo que Marcelo Odebrecht venha a aceitar, eventualmente, fazer um acordo de delação premiada, nenhum jurista do mundo reconheceria, moralmente, a sua legitimidade.

Não se pode pressionar ninguém, a fazer acordos com a Justiça, para fazer afirmações que dependerão da produção de provas futuras. Assim como não se pode confundir o combate à corrupção – se houver corruptos que sejam julgados com amplo direito de defesa e encaminhados exemplarmente à cadeia, estamos cheios de gente com contas na Suíça solta e sem contas na Suíça atrás das grades – com a onipotente destruição do país e de milhares de empregos e bilhões de reais em investimentos.

A pergunta que não quer calar é a seguinte: se a situação fosse contrária, e um juiz norte-americano formado no Brasil e “treinado” por autoridades brasileiras, a quem propôs, por mais de uma vez, sua “cooperação”, estivesse processando um almirante envolvido com o programa nuclear norte-americano, e influindo no destino de todo um programa de submarinos, da construção de um novo submarino atômico, e do desenvolvimento de um míssil ar-ar para a US Air Force, a ponto de a empresa norte-americana responsável por ele ter de ser provavelmente vendida a estrangeiros, ele teria chegado, à posição em que chegou, em nosso país, o juiz Sérgio Moro?

Ou já não teria sido denunciado por pelo menos parte da imprensa dos Estados Unidos, e chamado à razão, em nome da segurança e dos interesses nacionais, por autoridades – especialmente as judiciais – dos Estados Unidos?

O único consolo que resta, nesta nação tomada pela loucura – lembramos por meio destas palavras, que quem sabe venham a ser transportadas, em bits, para o amanhã – é que, sob o olhar do tempo, que para todos passará, inexorável, a História, magistrada definitiva e atenciosa, criteriosa e implacável, vigia, registra e julga.

E cobrará caro no futuro."
Prêmio Esso de Reportagem de 1971, fundou, na década do 1950, O Diário do Rio Doce, e trabalhou, no Brasil e no exterior, para jornais e publicações como Diário de Minas, Binômio, Última Hora, Manchete, Folha de S. Paulo, Correio Brasiliense, Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil onde mantêm uma coluna de comentários políticos.Cobriu, como correspondente, a invasão da Checoslováquia, em 1968, pelas forças do Pacto de Varsóvia, a Guerra Civil irlandesa e a Guerra do Saara Ocidental, e entrevistou homens e mulheres que marcaram a história do Século XX, como Willy Brandt, Garrincha, Dolores Ibarruri, Jorge Luis Borges, Lula e Juan Domingo Perón. Amigo e colaborador de Tancredo Neves, contribuiu para a articulação da sua eleição para a Presidência da República, que permitiu o redemocratização do Brasil. Foi secretário-executivo da Comissão de Estudos Constitucionais e Adido Cultural do Brasil em Roma. 

13 de abril de 2016

Vida em Sintropia

Wikipédia: "A sintropia, também designada negentropia - entropia negativa, é o contrário de entropia (que é a medida do grau de desorganização do sistema), ou seja, mede a organização das partículas do sistema. Um elemento negentrópico é aquele que contribui para o equilíbrio e para o desenvolvimento organizacional. A sintropia é um princípio simétrico e oposto ao de entropia física.
Enquanto a entropia é a medida da desordem ou da imprevisibilidade da informação, a sintropia é a função que representa o grau de ordem e de previsibilidade existente num sistema."

Agricultura Sintrópica: "Ernst Götsch é um agricultor e pesquisador suíço que migrou para o Brasil no começo da década de 80 e se estabeleceu em uma fazenda na zona cacaueira do sul da Bahia. Desde então, vem desenvolvendo técnicas de recuperação de solos por meio de métodos de plantio que mimetizam a regeneração natural de florestas. Com o acúmulo de mais de três décadas de trabalho que resultaram na recomposição de 480 hectares de terras degradadas (dos quais 350 foram transformados em RPPN, a primeira da Bahia), Götsch elaborou um conjunto de princípios e técnicas que viabilizam integrar produção de alimentos à dinâmica de regeneração natural de florestas, sempre complexificando sistemas, ao que convencionou chamar de Agricultura Sintrópica.
Como resultado de sua intervenção, além da colheita agrícola, observou-se que a fazenda desenvolveu seu próprio microclima, 14 nascentes de água foram recuperadas e a fauna repopulou o lugar. O experimento tem sido disseminado e adaptado a diferentes regiões e climas nos últimos 30 anos. Neste modelo de agricultura, o insumo mais importante é o conhecimento." (Em Partido Pirata).

Acima e além do momento complexo que vivemos (como diria o Luiz Felipe, ingratos e absurdos), posto abaixo um interessantíssimo vídeo que ele me repassou e que explica melhor os textos acima.
Um projeto viável para a melhoria do nosso mundo, que passa longe das dimensões de busca incessante de poder (com golpe disfarçado) que estamos vivenciando.


12 de abril de 2016

Manifesto Cultura Pela Democracia

"O que vivemos hoje no Brasil é uma clara ameaça ao que foi conquistado a duras penas: a democracia. Uma democracia ainda incompleta, é verdade, mas que soube, nos últimos anos, avançar de maneira decidida na luta contra as desigualdades e injustiças, na conquista de mais espaço de liberdade, na eterna tentativa de transformar este nosso país na casa de todos e não na dos poucos privilegiados de sempre.

Nós, trabalhadores das artes e da cultura em seus mais diversos segmentos de expressão, estamos unidos na defesa dessa democracia.

Da mesma forma que as artes e a cultura do nosso país se expressam em sua plena – e rica, e enriquecedora – diversidade, nós também integramos as mais diversas opções ideológicas, políticas, eleitorais.

Mas nos une, acima de tudo, a defesa do bem maior: a democracia. O respeito à vontade da maioria. O respeito à diversidade de opiniões.

Entendemos claramente que o recurso que permite a instauração do impedimento presidencial - isso que em português castiço é chamado de 'impeachment' - integra a Constituição Cidadã de 1988.

E é precisamente por isso, pelo respeito à Constituição, escudo maior da democracia, que seu uso indevido e irresponsável se constitui em um golpe branco, um golpe institucional, mas sempre um golpe. Quando não há base alguma para a sua aplicação, o que existe é um golpe de Estado.

Muitos de nós vivemos, aqui e em outros países, o fim da democracia. Todos nós, de todas as gerações, vivemos a reconquista dessa democracia. Defendemos e defenderemos, sempre, o direito à crítica, por mais contundente que seja, ao governo - a este e a qualquer outro. Mas, acima de tudo, defendemos e defenderemos a democracia reconquistada. Uma democracia, vale reiterar, que precisa avançar, e muito. Que não seja apenas o direito de votar, mas de participar, abranger, enfim, uma democracia completa, sem fim. Em que cada um possa reivindicar o direito à terra, ao meio-ambiente, à vida. À dignidade. Ela custou muita luta, sacrifício e vidas. Custou esperanças e desesperanças.

Que isso que tentam agora os ressentidos da derrota e os aventureiros do desastre não custe o futuro dos nossos filhos e netos.

Estamos reunidos para defender o presente. Para espantar o passado. Para merecer o futuro. Para construir esse futuro. Para merecer o tempo que nos foi dado para viver."

Leonardo Boff
Chico Buarque de Hollanda
Wagner Moura
Fernando Morais
Eric Nepomuceno

Para assinar o manifesto, clique aqui.

5 de fevereiro de 2016

Quase uma oração pela "Crise"

Mirna Grizch
Como de hábito, há um recesso em nosso blog ao longo deste período de verão.
Mas tenho me perguntado se, depois de tantos anos, ainda há alguma coisa a ser escrita e se existem leitores interessados em ler nossas opiniões, considerações e dicas.
Não tenho a resposta mas possivelmente ela seria sim. No entanto, o simples questionamento disso, nos coloca em uma posição de crise de criatividade e ânimo para continuar.
Ao pensar na palavra "crise" - e essa citada seria apenas mais uma entre tantas crises pessoais e globais que enfrentamos - me lembrei desta meditação, uma espécie de "ação de graças pela crise".
Palavra aliás que se tornou moda. Poderia ser outra, né? Afinal, quando mais reforçamos um tema negativo mais ele se torna forte. Óbvio. Lei da atração. Daí a recomendação de evitar os noticiários e os jornais da grande mídia.
Tá na hora de olharmos para frente e criarmos modismos com palavras menos duras e mais positivas como "esperança", "superação", "união", "apoio", "fé".
A crise, reflexo destes tempos complexos e conturbados, pode ser vista como uma oportunidade, conforme tenta nos mostrar a Mirna Grizch, neste texto editado originalmente na revista "Planeta - Meditação" em fins dos anos 1990.
Vale a pena ouvir.
Pode ter ali um insight para nos ajudar a atravessar esses momentos difíceis.



"Revista Meditação - Publicada entre 1998 e 2003 pela Editora Três, a Revista Meditação foi criada pela jornalista Mirna Grzich e tratava dos temas sempre eternos e atuais da busca humana. Planeta Meditação, Nova Era Meditação, Revista Meditação - nos cinco anos, a revista cresceu e se transformou, de 34 páginas passou a 100 páginas, cuidando de assuntos ligados à Espiritualidade, entrevistando grandes nomes da Ciência, da Terapia, da Arte, da Ecologia, dando espaço a escritores e mestres dos muitos caminhos da espiritualidade e da religião. Sua edição de 60 mil exemplares se esgotava todo mês, se transformando num caso editorial na midia brasileira. Como parte da publicação, acompanhava um CD cuja primeira faixa era uma meditação guiada por Miirna Grzich seguida de uma seleta de música world, new age, instrumental, com músicos da melhor qualidade."

18 de janeiro de 2016

O verão, a chuva, o tempo e os livros de saudades

Curioso que no chamado "alto-verão" (quer dizer, antigamente se chamava assim essa época de meados de janeiro) foi onde as temperaturas despencaram com a chegada das chuvas. Falo da Região Sudeste.
É a tal da "Convergência do Atlântico Sul". Ou qualquer outro nome que inventam a cada ano.
Assim, olho pela janela lateral da sala (não é do "quarto de dormir", como diria o Beto Guedes) nesta manhã de segunda-feira e vejo as gotas outonais que caem, ouço pássaros cantando na chuva - vai ver que o Fred Astaire está por ali também - e penso na praia a cinco minutos de distância mas que neste momento não me é tão convidativa. Além da chuva a temperatura está em 22ºC, quase Inverno. Para quem é do Rio.
Como ainda estou de férias restam-me outras coisas a fazer e que não são poucas.
Trouxe para o período de veraneio dois livros de Ruy Castro: o recém lançado "A Noite do Meu Bem - A História e as Histórias do Samba Canção" (anos 40 e 50) e "Chega de Saudade - A História e as Histórias da Bossa Nova" (anos 50 e 60). Ambos tem sua localização ambientada sobretudo na época de ouro de Copacabana, a Princesinha do Mar.
São livros musicais que pode-se ler ouvindo as canções que vão sendo citadas. Quem não tem os discos basta se conectar na Internet que acha tudo.
Mas o mais interessante são as histórias das pessoas, em conexão com os usos e costumes (i)morais(?) da época e do lugar. O Ruy tem essa capacidade de prender o leitor/ouvinte contando umas fofocas bem apimentadas e secretas. Quase secretas.
Fora os livros, tem os discos e filmes. E a rede na varanda. Se a chuva persistir. O que não é de todo mau.
Só assim para efetivamente descansar a mente e o corpo neste ano que vai exigir a ultrapassagem de muitos desafios para todos. Ou quase todos.
E ainda tem as redes sociais (que não são as da varanda), que eu tinha prometido não olhar em janeiro, mas que de vez em quando não resisto a uma passada rápida.
Foi numa dessas olhadas que me deparei com o artigo abaixo que uma amiga postou em um grupo do WhatsApp e que resolvi postar aqui, misturando alhos com bugalhos. Ou nem tanto.
Lendo livros de histórias dos anos 50 e 60 demonstro meu interesse em uma época em que era criança e confesso minha idade. Está aí a conexão.
Não cheguei aos 60 anos mas não estou tão distante disso. E, ao início deste Ano da Graça de 2016, me lembro que daqui a alguns meses estarei um pouco mais próximo desta barreira.
Mas, como diz o texto atribuído a antropóloga Mirian Goldenberg (e que ela garante que não foi ela que escreveu), quando chegar lá estarei apenas em uma nova faixa social, exclusiva do século XXI.
No mais, sigamos admirando a beleza das canções, dos lugares e das pessoas, como diz o (não tão) velho samba-canção - aqui na voz do internacional Dick Farney - sobre Copacabana.
E isso independe da época. Apesar do "Chega de Saudade", ela não tem idade e a nostalgia faz parte de nossa vida. Neste ponto não precisamos concordar em tudo que diz o texto a seguir.



Sexalescentes
"Se estivermos atentos, podemos notar que está surgindo uma nova faixa social, a das pessoas que estão em torno dos sessenta/setenta anos de idade, os sexalescentes-é a geração que rejeita a palavra “sexagenário”, porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer.
Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica – parecida com a que, em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.
Este novo grupo humano, que hoje ronda os sessenta/setenta, teve uma vida razoavelmente satisfatória.São homens e mulheres independentes, que trabalham há muitos anos e que
conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram, durante décadas, ao conceito de trabalho. Que procuraram e encontraram há muito a atividade de que mais gostavam e que com ela ganharam a vida.
Talvez seja por isso que se sentem realizados… Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram gozam plenamente cada dia sem medo do ócio ou solidão. Desfrutam a situação, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabe bem olhar para o mar sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro da janela de um 5.º andar….
Neste universo de pessoas saudáveis, curiosas e ativas, a mulher tem um papel destacado. Traz décadas de experiência de fazer a sua vontade, quando as suas mães só podiam obedecer, e de ocupar lugares na sociedade que as suas mães nem tinham sonhado ocupar.
Esta mulher sexalescente sobreviveu à bebedeira de poder que lhe deu o feminismo dos anos 60. Naqueles momentos da sua juventude em que eram tantas as mudanças, parou e refletiu sobre o que na realidade queria.
Algumas optaram por viver sozinhas, outras fizeram carreiras que sempre tinham sido exclusivamente para homens, outras escolheram ter filhos, outras não, foram jornalistas, atletas, juízas, médicas, diplomatas… Mas cada uma fez o que quis : reconheçamos que não foi fácil, e no entanto continuam a fazê-lo todos os dias.
Algumas coisas podem dar-se por adquiridas.
Por exemplo, não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos “sessenta/setenta”, homens e mulheres, lida com o computador como se o tivesse feito toda a vida. Escrevem aos filhos que estão longe e até se esquecem do velho telefone para contatar os amigos – mandam e-mails com as suas notícias, ideias e vivências.
De uma maneira geral estão satisfeitos com o seu estado civil e quando não estão, não se conformam e procuram mudá-lo. Raramente se desfazem em prantos senti mentais.
Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos. Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflete, toma nota, e parte para outra…
… Os homens não invejam a aparência das jovens estrelas do desporto, ou dos que ostentam um terno Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de um modelo. Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência.
Hoje, as pessoas na década dos sessenta/setenta, como tem sido seu costume ao longo da sua vida, estão estreando uma idade que não tem nome. Antes seriam velhos e agora já não o são. Hoje estão de boa saúde, física e mental, recordam a juventude mas sem nostalgias parvas, porque a juventude ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas.
Celebram o sol em cada manhã e sorriem para si próprios…Talvez por alguma secreta razão que só sabem e saberão os que chegam aos 60/70 no século XXI!"

30 de dezembro de 2015

A vida de Lemmy

 
Parte o ano de 2015 e com ele a notícia da partida também de Lemmy Kilmister líder e mentor do Motörhead, uma das bandas mais icônicas do Heavy Metal.
Não iniciados nos meandros do chamado "Rock Pesado" devem estranhar o destaque dado à morte dele, mas faz sentido por seu legado na história do Rock como um todo, uma vez que a fundação da banda em 1975 promoveu uma virada estilísticas no Hard Rock (em tempos de Punk) que acabou gerando os diversos subgêneros Heavy que temos hoje.
No entanto é importante frisar que o cantor, compositor e baixista sempre rotulou a música do Motörhead apenas como sendo Rock and Roll. Isso ao longo de 22 discos de estúdio e 10 álbuns ao vivo!
Além disso, Lemmy era figura ímpar, no palco e fora dele.
Viveu aquilo que cantava em suas músicas: jogava jogos de azar, fumava muito, bebia muito, nunca casou, tinha sempre muitas namoradas, odiava políticos, religiões dogmáticas e ironizava guerras. Isso até os 70 anos, em 45 anos de carreira (começou atuando no também lendário (e estranho) grupo de Rock Progressivo/Psicodélico/Space Rock, Hawkwind).
O fato pitoresco é que essa primeira banda, a ótima Hawkwind (que existe até hoje), de Lemmy, era considerado um grupo de "alucinados hippies ingleses" e eles demitiram Lemmy por o considerarem "alucinado" demais para os padrões deles. 
Seu empresário disse que era impossível acompanhá-lo, mesmo já na terceira idade.
Whiplash: Sobre o estilo de vida de Lemmy, Singerman diz que ele fazia Keith Richards parecer uma menininha: "Envolvia meio galão de Jack Daniel por dia, dois ou três maços de cigarro e outras coisinhas que ele adorava. E era todo dia. Recentemente ele tinha trocado o whiskey por vodka com suco de laranja e é difícil de imaginar mas ele considerava que era uma escolha mais saudável.
Para homenageá-lo escolhi uma música foras dos padrões normais do Motörhead: um Blues acústico que Lemmy canta quase que somente acompanhado de violão.
Mas o vídeo está bem de acordo com sua rotina ao longo da vida: noites viradas, bares nem sempre recomendáveis, mulheres, jogos, bebida. Bem Blues.

23 de dezembro de 2015

Nostalgia Musical Natalina: A Harpa e a Cristandade

Ao contrário de países como os EUA, onde quase todo artista de renome já lançou seu "disco de músicas de Natal", aqui no Brasil não temos muita essa tradição. Por isso aquele da Simone ficou tão manjado...
Me lembro que, ainda criança, lá pela primeira metade da década de 70, existia um LP obrigatório para quem tinha a felicidade de ter uma rádio-vitrola, o toca-discos da época, atual CD Player.
Chamava-se "A Harpa e a Cristandade", com aquelas clássicas tipo "Jingle Bells", tocadas por... harpa (é claro!).
Nem sei se lançaram em CD mas é a única recordação que tenho de um álbum natalino brasileiro da época dos vinis.
Há muito tempo não encontro um LP desses.
Pois olha o disco aí. E viva o You Tube!
Realmente procurando em lojas de discos não achei ele em CD. Aliás acho que nunca foi mesmo editado em formato digital.
Na verdade foi lançado em 1970 no Brasil (mas o original é de 1960!) pelo antigo selo Chantecler e fez parte da infância de muita gente durante toda aquela década. Depois sumiu.
O músico chamava-se Luis Bordon. Era paraguaio, especializado em Harpa Paraguaia e faleceu em 2006 aos 80 anos, tendo gravado mais de 30 discos.
A lista das músicas do LP (que aparece completo no vídeo abaixo) é a seguinte:

01 - Jingle Bells
02 - Noite Silenciosa
03 - Natal em Paz
04 - O Velhinho
05 - Natal das Crianças
06 - Árvore de Natal
07 - Boas Festas
08 - Pinheirinho Agreste
09 - Oração de Natal
10 - Feliz Navidad
11 - Natal Festivo
12 - Fim de Ano

Presente de fim de ano do blog. Para deixar rolar amanhã e no dia 25.
No mais, Feliz Natal e um ótimo 2016 para todos!


17 de dezembro de 2015

As Veias Abertas da Democracia Brasileira (e o 'Poder da Percepção' derrotando a Realidade através da grande mídia)

Chega o fim de ano, o verão, férias e o blog assume um compasso de espera até depois do carnaval.
A frase acima até teria sentido se estivéssemos, eu e o Felipe, postando com a intensidade dos primeiros tempos (e lá se vão muitos anos).
No momento já estamos há algum tempo em slow motion, por conta de exigências do trabalho nosso de cada dia e por conta de demandas particulares.
Ou seja, estamos sem tempo mesmo.
E eu ainda tento manter alguma periodicidade lá no outro blog, o Impressões, mas ultimamente tem sido difícil.
Tomara que em 2016 possamos voltar a ter ao menos parte daquele furor inicial, falando sobre tudo que nos chama atenção e - pelo menos deveria ser - de todos: meio-ambiente, política, economia e artes de forma geral.
Uma pena que esteja sendo assim. Neste momento o país vive um momento surrealista digno de Luis Buñel, que mereceria até uma interessante análise histórica, não fosse trágica.
Assim, pensei em encerrar os trabalhos deste ano aqui no blog com um texto que jogasse luz neste momento de cegueira de parte da coletividade.
No entanto, dois textos que me repassaram suprem de forma melhor o que eu poderia fazer. Seguem os mesmos, com os links.
No mais, que Deus tenha pena de nós.
E, se possível, que tenhamos um 2016 de volta à realidade, à normalidade e ao respeito à Democracia.

As Veias Abertas da Democracia Brasileira
"Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me. / Emalem a lua e desmantelem o sol/ Despejem o oceano e varram o bosque; / pois agora tudo é inútil." (W. H. Auden, 1938)

"Num texto que se tornou clássico, escrito em 1962, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos indagava: "Quem dará o Golpe no Brasil? "

As perguntas, neste final de 2015, são de outra ordem: "quando irá se consolidar o Golpe que teve início em outubro de 2014?

Quando os poetas libertários deverão cantar o réquiem para a Democracia Brasileira, inspirados nos belos versos de Auden?

E o Brasil, quando voltará à normalidade, rasgando a camisa de força do imobilismo e da paralisia econômica, impostas pelos partidos da elite, inconformados com uma derrota eleitoral imprevista, completamente fora de seus planos sinistros, inconfessáveis?

E, se consolidado o Golpe, quem irá organizar a Resistência Democrática, sucedendo (pois eles são insubstituíveis): Millôr Fernandes, Jaguar, Boal, Tônia Carrero, Vandré, Ziraldo, Leila Diniz, Chico Buarque, Edu Lobo, Fernando Gasparian, Teotônio Villela, Raimundo Pereira, D. Hélder Câmara, Ivan Lessa, Terezinha Zerbini, D. Paulo Evaristo Arns, Mino Carta e tantos e tantos outros que lutaram pela volta do país ao regime democrático, combatendo, pacientemente, com as armas da resistência (e da inteligência) política?

Exagero? Talvez. Mas seria ingenuidade imaginar que os golpistas – indisfarçados agentes políticos da ideologia neoliberal - caso tenham êxito em suas manobras antidemocráticas, iriam ficar satisfeitos com a retomada do poder executivo para implantar o seu projeto, cujo conteúdo jamais será explicitado e trazido ao debate aberto. Eles continuariam a aplicar o seu programa autoritário (pois é disso que se trata), calando a Cidadania, suspendendo direitos democráticos e amordaçando qualquer manifestação que considerarem nociva, capaz de por em risco os seus desígnios ditatoriais e antidemocráticos.

A censura mais draconiana seria aplicada, incluindo agora a comunicação eletrônica, com o cerco brutal e impiedoso ao blogueiros, que se mantêm serenos e corajosos no desempenho da sua brava missão de baluartes da resistência ao golpe e da reposição da verdade factual, comprometida pelas manipulações grosseiras da chamada grande imprensa. Aliada fiel e incondicional dos partidos neoliberais.

Uma pequena amostra desse tipo de censura pode ser detectada pelas inúmeras ações judiciais movidas pelos donos de jornal e seus obedientes funcionários contra os chamados "blogueiros sujos", na tentativa de, ao fazer pressão econômica pela via judicial, obter o seu silêncio.

Quais as causas para o desespero e o inconformismo dos partidos neoliberais frente à incontestável vitória eleitoral de 2014 da coalizão progressista que governa o país desde 2003? A ponto de assumir um posicionamento claramente golpista, quebrando a ordem constitucional vigente, colocando o Brasil numa situação ainda de maior risco, diante da prolongada crise do sistema capitalista mundial?

Começa a assumir contornos mais nítidos o que está em jogo nesta insana luta pelo poder assumida pelos agentes políticos neoliberais, aparentemente ignorando as graves consequências da divisão e da paralisação do Brasil neste difícil momento. Trata-se do confronto entre dois projetos inconciliáveis. Os quais foram submetidos, na prática, ao escrutínio dos brasileiros: o projeto neoliberal por oito anos ( 1994 a 2002) e o progressista e de inclusão social por doze (2003 /2014).

Um deles, o de origem neoliberal, propondo o Estado Mínimo, a extinção pura e simples das políticas sociais, a submissão do país no campo político internacional, a "neutralização" dos Movimentos Sociais, o arrocho salarial, o controle a todo custo da inflação e dos gastos do governo, a venda do patrimônio do país a preço vis, incluindo a Petrobrás, o aumento de juros e o pagamento – sagrado – da "dívida pública", jamais cometendo a heresia de questioná-la. Como se pode perceber, é um projeto a ser posto em prática de forma sub-reptícia, sem discussão e sem o necessário debate político.

O projeto alternativo é o que vem sendo aplicado nos últimos 12anos de governos progressistas e que a nação brasileira vivenciou até outubro de 2014, com grande aprovação popular, o que explicaria a reeleição da presidente Dilma Roussef: inclusão social, mais acesso ás escolas e às universidades, direito à casa própria, melhores salários e empregos e renda, independência no campo político internacional, incremento das condições de vida dos brasileiros situados abaixo da linha de pobreza, entre outras ações de Governos as quais se mostraram capazes de promover mais Igualdade e Justiça Social. Que soam como graves heresias para o neoliberalismo; e que podem ser considerados como os "erros" inaceitáveis dos governos progressistas.

Como, entretanto, o triunfo dos neoliberais não foi completo – pois faltou a presidência da República – seus estrategistas decidiram que o programa progressista deveria ser interrompido, a qualquer preço. Preparando a volta do retrocesso feroz.

(Vai que o povão ("ralé?) vai se acostumando e assume como um direito natural viagens aéreas, melhores emprego e renda, casa própria, escolas e até universidades...).

A contenção dos avanços sociais e a promoção da desigualdade seriam, então, a síntese do programa neoliberal, que por razões óbvias, deverá permanecer oculto.

Se pegarmos o exemplo da chamada dívida pública, para muitos observadores a estratégia econômica fundamental do projeto conservador, iremos notar que a sua discussão e o debate político qualificado é cada vez mais restrito. Esquecido, até.

Para alguns especialistas no tema, a dívida pública constitui simplesmente uma fraude, algo ilegítimo, imposto a vários países, a qual compromete gravemente o seu progresso e o seu desenvolvimento. E drena recursos, (que seriam aplicados em obras essenciais), para os bancos privados. Em alguns países esses recursos, generosamente transferidos, somam quase a metade de todo o orçamento

De acordo com a economista Maria Lúcia Fatorelli, presidente da Auditoria Cidadã da Dívida Pública, em entrevista recente a "Caros Amigos" (acessível em www.caros amigos.com.br/ nº 224/2015 - "Opressão Financeira"), trata-se de um endividamento público ilegítimo, e que vem obrigando os brasileiros a desistir do seu crescimento econômico e da manutenção de políticas públicas , como Saúde e Educação, por exemplo. Para entender melhor os incríveis mecanismos que mantêm ativas essas "tenebrosas (e infinitas) transações" é recomendável a leitura da íntegra da entrevista. Após sua leitura, nenhum brasileiro consciente continuará pensar de forma ingênua sobre a economia do seu país. E sobre a propalada "crise econômica", repetida de forma incansável pela mídia.

Um outro ponto fulcral do programa é a destruição lenta e inexorável do Estado de Bem Estar Social, um item prioritário do Neoliberalismo. Associado ao aumento brutal da Desigualdade.

A historiadora portuguesa Raquel Varela , em entrevista, expõe com bastante clareza estes dois aspectos da pauta Neoliberal, mostrando, em números: "em 1945, a diferença entre um rico e um pobre( ou trabalhador qualificado) na Europa , era de 1 para 12; em 1980 subiu de 1 para 82; e hoje é de 1 para 530".

É possível que esses fatos ajudem a explicar o atual contexto político. A vitória da Oposição na eleição presidencial de 2014 era um imperativo estratégico para a implantação do seu projeto conservador, no qual o Retrocesso seria o objetivo norteador das ações do novo Governo.

Portanto, o discurso (de mão única) moralista e a preocupação com a corrupção compõem apenas uma fachada para encobrir metas estratégicas inconfessáveis da pauta neoliberal.

Se para atingir tais objetivos, tornou-se necessária a interrupção do processo democrático, como preço a pagar, que se cumpra o ritual autoritário de destruição da Democracia. Recurso sempre disponível aos neofascistas latino-americanos.

Diante de tão sérias ameaças, qual tarefa caberia às forças progressistas, nesta difícil conjuntura?

Antes de tudo, fazer a interpretação correta da grave situação política – repetimos: situação política - vivenciada pelo país, agregando todas as variáveis disponíveis, evitando preconceitos ou vieses ideológicos. Em outras palavras, entender perfeitamente qual é o jogo e quem são os adversários;

Deixar de lado, em definitivo, concepções ingênuas, adquirindo a clara percepção de que inconfessáveis interesses do Capitalismo Internacional movem as peças do jogo político interno, manipulando eleições e altas decisões estratégicas no campo político e econômico;

Assumir, como fato concreto, que os segmentos bem articulados politicamente conseguem o domínio do complexo jogo do Poder. Vide o exemplo da atual espúria articulação entre setores da mídia, do judiciário e do congresso nacional, na defesa dos interesses - explícitos e ocultos - do Capitalismo Internacional;

Trabalhar pelo desenvolvimento permanente de ações políticas, organizadas a partir de fundamentações teóricas e avaliações táticas e estratégicas, implantadas a partir da articulação entre partidos políticos, organizações sociais, sindicais e da sociedade civil, na defesa de conquistas sociais, das liberdades públicas e do processo democrático. Colocando-se, de forma intransigente, contra todas as tentativas de Retrocesso;

Enfim, organizar a luta política, unindo, inteligentemente, os mais diversos segmentos representativos da Nação Brasileira, de forma a garantir a mobilização permanente das suas forças democráticas e progressistas. Evocando, novamente, o historiador britânico Arnold Toynbee que afirmava: "Civilização é um movimento não uma condição; uma viagem, não um porto". Podemos inferir que este raciocínio do historiador, pode ser aplicado 'a Democracia.

Algo que se conquista a cada dia. Uma luta infinda contra os que, de forma melíflua e traiçoeira, pretendem vê-la extinta, para melhor defender seus interesses escusos, contra os mais legítimos interesses do país. Este é o cenário da luta atual do povo brasileiro."
Autor: Geniberto Paiva Campos (Médico) no site Brasil 247 em 15/12/2015.

A lógica da opção da mídia pela Percepção e não pela Realidade
"Uma campanha de marketing histórica da revista americana Rolling Stone confrontava percepção e realidade.

A campanha virou um caso de estudo.

Era assim. A percepção das pessoas era que a RS era lida por hippies, ou neo-hippies, pessoas avessas a qualquer tipo de consumo.
A realidade era que os leitores da RS consumiam como todos os leitores de revista.

Indigente em publicidade, a revista se tornou um sucesso publicitário.

Essa campanha me ocorreu ao ler o levantamento da Folha deste domingo sobre os 13 anos de PT no poder.

Escrevi já um artigo, mas não citei a RS e sua clássica diferenciação entre percepção e realidade.

Involuntariamente, a Folha mostrou a percepção e a realidade. A percepção é que o país não melhorou. Foi o que disseram, segundo a Folha, 68% dos ouvidos.

A realidade, no entanto, é que todos ganharam nestes 13 anos. Os 10% mais ricos tiveram 30% de aumento na renda em termos reais, descontada a inflação.

Para os 10% mais pobres, o aumento foi de 129%, o que significou uma redução no real câncer nacional: a desigualdade social.

A Folha usa uma expressão parecida com uma que marcou os anos Lula. Esse tipo de coisa nunca acontecera antes na história medida pelo IBGE.

Pois bem.

Você tem aí percepção versus realidade. A percepção: não melhoramos. A realidade: melhoramos sim.

E qual a opção que a Folha escolhe para dar na manchete? A percepção. Desnecessário dizer, o resto da mídia acompanhou-a nesse passo maldado.

A Folha teve uma grande chance de mostrar a realidade. Mas escolheu a percepção, pela qual, aliás, ela é um dos responsáveis.

Você pode ver o poder da percepção nos depoimentos dos manifestantes deste domingo na Paulista.

Todos descreviam o apocalipse, desgarrados dos fatos em si. O país acabou. Estamos destruídos. Não há mais esperança fora de um golpe.

Você tem, nisso, uma prova do serviço horroroso que a mídia presta para a sociedade. Jornais e revistas desinformam, manipulam, escamoteiam.

Eles criam uma realidade paralela, uma distopia absoluta que mostra um país em processo de desintegração.

O motivo é sabotar um governo popular. É uma rotina. Aconteceu o mesmo em 1954 com Vargas e em 1964 com Jango.

Se Dilma for derrubada, a imprensa engavetará imediatamente a distopia. Um clima de otimismo estridente se espalhará pelo país por jornais, revistas, rádios, telejornais e sites das grandes empresas jornalísticas.

A corrupção deixará as manchetes, não por ter sido debelada, mas por não ser mais útil para desestabilizar os inimigos.

Aécio poderá continuar, tranquilamente, fazendo coisas como um aeroporto particular com dinheiro do povo. Eduardos Cunhas continuarão a tramar no Congresso para aprovar medidas favoráveis à plutocracia.

Seremos felizes. Mas de mentirinha. Como nos tempos da ditadura, durante os quais Medici, numa frase célebre, disse que era ótimo ver o Jornal Nacional. Num mundo convulso, o Brasil era um oásis de próspera tranquilidade segundo o JN.

Os únicos que terão reais motivos para gargalhar são os plutocratas. A desigualdade avançará e, em consequência, os ricos ficarão ainda mais ricos.

A utopia será uma percepção. A realidade será cruel."
Autor: Paulo Nogueira no Diário do Centro do Mundo em 14/12/2015.

3 de dezembro de 2015

Impeachment

"A aceitação do pedido de impeachment pelo Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, ocorre em um momento em que poucas vezes a classe política brasileira esteve tão desacreditada, e tão, também – intencionalmente - vilipendiada junto à opinião pública.

No início do ano, logo depois das eleições, pesquisa do Datafolha indicava que 71% dos entrevistados não tinham preferência por nenhum partido político.

Em julho, pesquisa do IBOPE mostrava que o Congresso Nacional ocupava a penúltima posição entre 18 instituições pesquisadas, incluídas a Igreja e o Exército, com a confiança de apenas 17% da população, enquanto, diuturnamente, os mesmos internautas que atacam o PT o faziam – e continuam fazendo - com a classe política, contrapondo a deputados, senadores, vereadores, prefeitos, ministros, considerados, pela bandeira da antipolítica, corruptos, bandidos e desonestos, um altíssimo índice de confiança – empurrado pela própria atitude da mídia – em policiais, procuradores e juízes, como se entre os magistrados, no Ministério Público e nas forças de segurança, só houvesse profissionais impolutos e ilibados, e para o exercício da atividade política fosse característica primordial e imprescindível a condição de mentiroso, ladrão, pilantra e mau-caráter.          

É perigoso e ingênuo acreditar que esse seja apenas um retrato do momento, que possa ser corrigido somente com a troca da correlação de forças, e que não haja nada mais no horizonte, além do embate entre diferentes partidos e grupos políticos e os aviões de carreira.  

Iludem-se os políticos de centro e de oposição, os oportunistas e os indiferentes, se acreditam que, entregando a cabeça de Dilma Roussef, terão as suas poupadas, e elas continuarão sobre os ombros, para se abaixar à passagem da faixa presidencial.
Pelo contrário, Dilma pode, paradoxalmente, ser o dique – ou o alvo – que ainda atrai para si as balas e contêm o tsunami.

A criminalização da atividade política, insuflada contra o PT pela oposição, secundada por uma mídia seletiva e comprometida, quebrou, quase que definitivamente, o equilíbrio de poderes em que se baseia o sistema republicano tradicional, substituindo a negociação, anteriormente exercida como base do Presidencialismo de Coalizão, pela atuação de forças externas, de caráter não  nominalmente, mas profundamente político, criando uma espécie de Frankenstein descontrolado, que coloca, de fato, parcela da burocracia do Estado, acima e além daqueles que detêm o voto da população.

O “acoelhamento” do Senado, recusando a prerrogativa de julgar um de seus pares, mesmo que para sua posterior entrega à prisão – abrindo mão de tentar, ao menos, mostrar firmeza, autonomia e determinação ética para a opinião pública - é o retrato da rendição do Poder Legislativo à máquina repressora de parte da justiça, e abriu a possibilidade para que qualquer homem público seja acusado, em seqüência, de qualquer coisa, a qualquer momento, bastando cair em uma esparrela, por um bilhetinho qualquer – subitamente elevado pela imprensa à condição de “documento” - a acusação de um desafeto ou de um delator “premiado” disposto a qualquer atitude para salvar a própria pele, ou uma frase passível de interpretação dúbia ou subjetiva pinçada em seu e-mail ou em uma conversação telefônica.    

Que os incautos não se iludam.

Não haverá tergiversação ou acordo com aqueles que estiverem, na base do governo, ou na oposição, alimentando a ilusão de pensar que irão substituir a Presidente da República em caso de impeachment, ou mesmo de sucedê-la, eventualmente, tranqüilo e normalmente, por meio do voto.

Qualquer liderança que representar ameaça para o projeto de poder em curso – que, mais uma vez, não se iludam os incautos, parece não se tratar de outra coisa – poderá vir a ser eventualmente envolvida na maré de acusações e afastada da vida pública, com as suas cabeças rolando, uma por uma.

A única esperança de retorno a uma situação de normalidade mínima está, no curto prazo, na interrupção negociada, inteligente e equilibrada, do processo de strip-tease, de MMA mútuo, público e suicida dos diferentes partidos e lideranças aos olhos da opinião pública.

E no fim da busca de soluções extemporâneas para a disputa do poder – qualquer singularidade só pode beneficiar forças externas ao ambiente político – com um retorno ao calendário e aos ritos de praxe, o que implica na defesa institucional e organizada, por parte da classe política, de sua imagem frente à opinião pública, seguida de uma disputa programática e civilizada nas próximas eleições, que serão realizadas em menos de um ano.

Isso não bastará, naturalmente, para terminar com o processo de desgaste intencional da atividade pública que está se aprofundando, com enorme e deletério sucesso, e que pretende, entre outras coisas, substituir os “políticos” clássicos, hoje abertamente reputados como “sujos”, por impolutos e heroicos justiceiros messiânicos, que gozam de poder para, se quiserem, tentar governar indiretamente o país por meio de pressões e prisões, ou para fazer uma súbita e “surpreendente” irrupção no universo político.              

Mas, pelo menos, poderá levar a atual geração de homens públicos – em última instância herdeira da representação popular por meio do voto – a fazer frente, unida, cerrando fileiras, independente de sua orientação política, a pressões externas, senão em defesa de si mesma, ao menos do Parlamento, como um poder independente, e da própria Democracia, no lugar de se arriscar a sair da vida pública e a entrar na história, um por um, submissos e humilhados, com as mãos nas costas, e a sua biografia arrastada na lama.

Essa reação não impedirá que, embalados pela mídia e as campanhas iniciadas pela própria oposição, personagens oriundos das operações em curso venham a se sentir tentados a participar, também, diretamente, do processo político, transformando-se eventualmente em candidatos, nos próximos pleitos.

Como o Aedes Aegypti, a mosca azul pode picar qualquer um, e o seu vírus é mais poderoso que o da dengue ou que o da chikungunya.

Como um procurador fez questão de lembrar, há poucos dias, há operações que estão em curso – que eram vistas inicialmente como uma  forma de tirar o PT do poder - que deverão durar pelo menos pelos próximos 10 anos.

Isso as transforma, como um touro trancado em uma loja de louças - em um elemento novo, incontrolável e permanente – que deverá ter seus efeitos analisados, avaliados e eventualmente corrigidos e limitados, por quem de direito na Praça dos Três Poderes – no contexto do processo econômico, social e político brasileiro."
Mauro Santayana