5 de fevereiro de 2016

Quase uma oração pela "Crise"

Mirna Grizch
Como de hábito, há um recesso em nosso blog ao longo deste período de verão.
Mas tenho me perguntado se, depois de tantos anos, ainda há alguma coisa a ser escrita e se existem leitores interessados em ler nossas opiniões, considerações e dicas.
Não tenho a resposta mas possivelmente ela seria sim. No entanto, o simples questionamento disso, nos coloca em uma posição de crise de criatividade e ânimo para continuar.
Ao pensar na palavra "crise" - e essa citada seria apenas mais uma entre tantas crises pessoais e globais que enfrentamos - me lembrei desta meditação, uma espécie de "ação de graças pela crise".
Palavra aliás que se tornou moda. Poderia ser outra, né? Afinal, quando mais reforçamos um tema negativo mais ele se torna forte. Óbvio. Lei da atração. Daí a recomendação de evitar os noticiários e os jornais da grande mídia.
Tá na hora de olharmos para frente e criarmos modismos com palavras menos duras e mais positivas como "esperança", "superação", "união", "apoio", "fé".
A crise, reflexo destes tempos complexos e conturbados, pode ser vista como uma oportunidade, conforme tenta nos mostrar a Mirna Grizch, neste texto editado originalmente na revista "Planeta - Meditação" em fins dos anos 1990.
Vale a pena ouvir.
Pode ter ali um insight para nos ajudar a atravessar esses momentos difíceis.



"Revista Meditação - Publicada entre 1998 e 2003 pela Editora Três, a Revista Meditação foi criada pela jornalista Mirna Grzich e tratava dos temas sempre eternos e atuais da busca humana. Planeta Meditação, Nova Era Meditação, Revista Meditação - nos cinco anos, a revista cresceu e se transformou, de 34 páginas passou a 100 páginas, cuidando de assuntos ligados à Espiritualidade, entrevistando grandes nomes da Ciência, da Terapia, da Arte, da Ecologia, dando espaço a escritores e mestres dos muitos caminhos da espiritualidade e da religião. Sua edição de 60 mil exemplares se esgotava todo mês, se transformando num caso editorial na midia brasileira. Como parte da publicação, acompanhava um CD cuja primeira faixa era uma meditação guiada por Miirna Grzich seguida de uma seleta de música world, new age, instrumental, com músicos da melhor qualidade."

18 de janeiro de 2016

O verão, a chuva, o tempo e os livros de saudades

Curioso que no chamado "alto-verão" (quer dizer, antigamente se chamava assim essa época de meados de janeiro) foi onde as temperaturas despencaram com a chegada das chuvas. Falo da Região Sudeste.
É a tal da "Convergência do Atlântico Sul". Ou qualquer outro nome que inventam a cada ano.
Assim, olho pela janela lateral da sala (não é do "quarto de dormir", como diria o Beto Guedes) nesta manhã de segunda-feira e vejo as gotas outonais que caem, ouço pássaros cantando na chuva - vai ver que o Fred Astaire está por ali também - e penso na praia a cinco minutos de distância mas que neste momento não me é tão convidativa. Além da chuva a temperatura está em 22ºC, quase Inverno. Para quem é do Rio.
Como ainda estou de férias restam-me outras coisas a fazer e que não são poucas.
Trouxe para o período de veraneio dois livros de Ruy Castro: o recém lançado "A Noite do Meu Bem - A História e as Histórias do Samba Canção" (anos 40 e 50) e "Chega de Saudade - A História e as Histórias da Bossa Nova" (anos 50 e 60). Ambos tem sua localização ambientada sobretudo na época de ouro de Copacabana, a Princesinha do Mar.
São livros musicais que pode-se ler ouvindo as canções que vão sendo citadas. Quem não tem os discos basta se conectar na Internet que acha tudo.
Mas o mais interessante são as histórias das pessoas, em conexão com os usos e costumes (i)morais(?) da época e do lugar. O Ruy tem essa capacidade de prender o leitor/ouvinte contando umas fofocas bem apimentadas e secretas. Quase secretas.
Fora os livros, tem os discos e filmes. E a rede na varanda. Se a chuva persistir. O que não é de todo mau.
Só assim para efetivamente descansar a mente e o corpo neste ano que vai exigir a ultrapassagem de muitos desafios para todos. Ou quase todos.
E ainda tem as redes sociais (que não são as da varanda), que eu tinha prometido não olhar em janeiro, mas que de vez em quando não resisto a uma passada rápida.
Foi numa dessas olhadas que me deparei com o artigo abaixo que uma amiga postou em um grupo do WhatsApp e que resolvi postar aqui, misturando alhos com bugalhos. Ou nem tanto.
Lendo livros de histórias dos anos 50 e 60 demonstro meu interesse em uma época em que era criança e confesso minha idade. Está aí a conexão.
Não cheguei aos 60 anos mas não estou tão distante disso. E, ao início deste Ano da Graça de 2016, me lembro que daqui a alguns meses estarei um pouco mais próximo desta barreira.
Mas, como diz o texto atribuído a antropóloga Mirian Goldenberg (e que ela garante que não foi ela que escreveu), quando chegar lá estarei apenas em uma nova faixa social, exclusiva do século XXI.
No mais, sigamos admirando a beleza das canções, dos lugares e das pessoas, como diz o (não tão) velho samba-canção - aqui na voz do internacional Dick Farney - sobre Copacabana.
E isso independe da época. Apesar do "Chega de Saudade", ela não tem idade e a nostalgia faz parte de nossa vida. Neste ponto não precisamos concordar em tudo que diz o texto a seguir.



Sexalescentes
"Se estivermos atentos, podemos notar que está surgindo uma nova faixa social, a das pessoas que estão em torno dos sessenta/setenta anos de idade, os sexalescentes-é a geração que rejeita a palavra “sexagenário”, porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer.
Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica – parecida com a que, em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.
Este novo grupo humano, que hoje ronda os sessenta/setenta, teve uma vida razoavelmente satisfatória.São homens e mulheres independentes, que trabalham há muitos anos e que
conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram, durante décadas, ao conceito de trabalho. Que procuraram e encontraram há muito a atividade de que mais gostavam e que com ela ganharam a vida.
Talvez seja por isso que se sentem realizados… Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram gozam plenamente cada dia sem medo do ócio ou solidão. Desfrutam a situação, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabe bem olhar para o mar sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro da janela de um 5.º andar….
Neste universo de pessoas saudáveis, curiosas e ativas, a mulher tem um papel destacado. Traz décadas de experiência de fazer a sua vontade, quando as suas mães só podiam obedecer, e de ocupar lugares na sociedade que as suas mães nem tinham sonhado ocupar.
Esta mulher sexalescente sobreviveu à bebedeira de poder que lhe deu o feminismo dos anos 60. Naqueles momentos da sua juventude em que eram tantas as mudanças, parou e refletiu sobre o que na realidade queria.
Algumas optaram por viver sozinhas, outras fizeram carreiras que sempre tinham sido exclusivamente para homens, outras escolheram ter filhos, outras não, foram jornalistas, atletas, juízas, médicas, diplomatas… Mas cada uma fez o que quis : reconheçamos que não foi fácil, e no entanto continuam a fazê-lo todos os dias.
Algumas coisas podem dar-se por adquiridas.
Por exemplo, não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos “sessenta/setenta”, homens e mulheres, lida com o computador como se o tivesse feito toda a vida. Escrevem aos filhos que estão longe e até se esquecem do velho telefone para contatar os amigos – mandam e-mails com as suas notícias, ideias e vivências.
De uma maneira geral estão satisfeitos com o seu estado civil e quando não estão, não se conformam e procuram mudá-lo. Raramente se desfazem em prantos senti mentais.
Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos. Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflete, toma nota, e parte para outra…
… Os homens não invejam a aparência das jovens estrelas do desporto, ou dos que ostentam um terno Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de um modelo. Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência.
Hoje, as pessoas na década dos sessenta/setenta, como tem sido seu costume ao longo da sua vida, estão estreando uma idade que não tem nome. Antes seriam velhos e agora já não o são. Hoje estão de boa saúde, física e mental, recordam a juventude mas sem nostalgias parvas, porque a juventude ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas.
Celebram o sol em cada manhã e sorriem para si próprios…Talvez por alguma secreta razão que só sabem e saberão os que chegam aos 60/70 no século XXI!"

30 de dezembro de 2015

A vida de Lemmy

 
Parte o ano de 2015 e com ele a notícia da partida também de Lemmy Kilmister líder e mentor do Motörhead, uma das bandas mais icônicas do Heavy Metal.
Não iniciados nos meandros do chamado "Rock Pesado" devem estranhar o destaque dado à morte dele, mas faz sentido por seu legado na história do Rock como um todo, uma vez que a fundação da banda em 1975 promoveu uma virada estilísticas no Hard Rock (em tempos de Punk) que acabou gerando os diversos subgêneros Heavy que temos hoje.
No entanto é importante frisar que o cantor, compositor e baixista sempre rotulou a música do Motörhead apenas como sendo Rock and Roll. Isso ao longo de 22 discos de estúdio e 10 álbuns ao vivo!
Além disso, Lemmy era figura ímpar, no palco e fora dele.
Viveu aquilo que cantava em suas músicas: jogava jogos de azar, fumava muito, bebia muito, nunca casou, tinha sempre muitas namoradas, odiava políticos, religiões dogmáticas e ironizava guerras. Isso até os 70 anos, em 45 anos de carreira (começou atuando no também lendário (e estranho) grupo de Rock Progressivo/Psicodélico/Space Rock, Hawkwind).
O fato pitoresco é que essa primeira banda, a ótima Hawkwind (que existe até hoje), de Lemmy, era considerado um grupo de "alucinados hippies ingleses" e eles demitiram Lemmy por o considerarem "alucinado" demais para os padrões deles. 
Seu empresário disse que era impossível acompanhá-lo, mesmo já na terceira idade.
Whiplash: Sobre o estilo de vida de Lemmy, Singerman diz que ele fazia Keith Richards parecer uma menininha: "Envolvia meio galão de Jack Daniel por dia, dois ou três maços de cigarro e outras coisinhas que ele adorava. E era todo dia. Recentemente ele tinha trocado o whiskey por vodka com suco de laranja e é difícil de imaginar mas ele considerava que era uma escolha mais saudável.
Para homenageá-lo escolhi uma música foras dos padrões normais do Motörhead: um Blues acústico que Lemmy canta quase que somente acompanhado de violão.
Mas o vídeo está bem de acordo com sua rotina ao longo da vida: noites viradas, bares nem sempre recomendáveis, mulheres, jogos, bebida. Bem Blues.

23 de dezembro de 2015

Nostalgia Musical Natalina: A Harpa e a Cristandade

Ao contrário de países como os EUA, onde quase todo artista de renome já lançou seu "disco de músicas de Natal", aqui no Brasil não temos muita essa tradição. Por isso aquele da Simone ficou tão manjado...
Me lembro que, ainda criança, lá pela primeira metade da década de 70, existia um LP obrigatório para quem tinha a felicidade de ter uma rádio-vitrola, o toca-discos da época, atual CD Player.
Chamava-se "A Harpa e a Cristandade", com aquelas clássicas tipo "Jingle Bells", tocadas por... harpa (é claro!).
Nem sei se lançaram em CD mas é a única recordação que tenho de um álbum natalino brasileiro da época dos vinis.
Há muito tempo não encontro um LP desses.
Pois olha o disco aí. E viva o You Tube!
Realmente procurando em lojas de discos não achei ele em CD. Aliás acho que nunca foi mesmo editado em formato digital.
Na verdade foi lançado em 1970 no Brasil (mas o original é de 1960!) pelo antigo selo Chantecler e fez parte da infância de muita gente durante toda aquela década. Depois sumiu.
O músico chamava-se Luis Bordon. Era paraguaio, especializado em Harpa Paraguaia e faleceu em 2006 aos 80 anos, tendo gravado mais de 30 discos.
A lista das músicas do LP (que aparece completo no vídeo abaixo) é a seguinte:

01 - Jingle Bells
02 - Noite Silenciosa
03 - Natal em Paz
04 - O Velhinho
05 - Natal das Crianças
06 - Árvore de Natal
07 - Boas Festas
08 - Pinheirinho Agreste
09 - Oração de Natal
10 - Feliz Navidad
11 - Natal Festivo
12 - Fim de Ano

Presente de fim de ano do blog. Para deixar rolar amanhã e no dia 25.
No mais, Feliz Natal e um ótimo 2016 para todos!


17 de dezembro de 2015

As Veias Abertas da Democracia Brasileira (e o 'Poder da Percepção' derrotando a Realidade através da grande mídia)

Chega o fim de ano, o verão, férias e o blog assume um compasso de espera até depois do carnaval.
A frase acima até teria sentido se estivéssemos, eu e o Felipe, postando com a intensidade dos primeiros tempos (e lá se vão muitos anos).
No momento já estamos há algum tempo em slow motion, por conta de exigências do trabalho nosso de cada dia e por conta de demandas particulares.
Ou seja, estamos sem tempo mesmo.
E eu ainda tento manter alguma periodicidade lá no outro blog, o Impressões, mas ultimamente tem sido difícil.
Tomara que em 2016 possamos voltar a ter ao menos parte daquele furor inicial, falando sobre tudo que nos chama atenção e - pelo menos deveria ser - de todos: meio-ambiente, política, economia e artes de forma geral.
Uma pena que esteja sendo assim. Neste momento o país vive um momento surrealista digno de Luis Buñel, que mereceria até uma interessante análise histórica, não fosse trágica.
Assim, pensei em encerrar os trabalhos deste ano aqui no blog com um texto que jogasse luz neste momento de cegueira de parte da coletividade.
No entanto, dois textos que me repassaram suprem de forma melhor o que eu poderia fazer. Seguem os mesmos, com os links.
No mais, que Deus tenha pena de nós.
E, se possível, que tenhamos um 2016 de volta à realidade, à normalidade e ao respeito à Democracia.

As Veias Abertas da Democracia Brasileira
"Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me. / Emalem a lua e desmantelem o sol/ Despejem o oceano e varram o bosque; / pois agora tudo é inútil." (W. H. Auden, 1938)

"Num texto que se tornou clássico, escrito em 1962, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos indagava: "Quem dará o Golpe no Brasil? "

As perguntas, neste final de 2015, são de outra ordem: "quando irá se consolidar o Golpe que teve início em outubro de 2014?

Quando os poetas libertários deverão cantar o réquiem para a Democracia Brasileira, inspirados nos belos versos de Auden?

E o Brasil, quando voltará à normalidade, rasgando a camisa de força do imobilismo e da paralisia econômica, impostas pelos partidos da elite, inconformados com uma derrota eleitoral imprevista, completamente fora de seus planos sinistros, inconfessáveis?

E, se consolidado o Golpe, quem irá organizar a Resistência Democrática, sucedendo (pois eles são insubstituíveis): Millôr Fernandes, Jaguar, Boal, Tônia Carrero, Vandré, Ziraldo, Leila Diniz, Chico Buarque, Edu Lobo, Fernando Gasparian, Teotônio Villela, Raimundo Pereira, D. Hélder Câmara, Ivan Lessa, Terezinha Zerbini, D. Paulo Evaristo Arns, Mino Carta e tantos e tantos outros que lutaram pela volta do país ao regime democrático, combatendo, pacientemente, com as armas da resistência (e da inteligência) política?

Exagero? Talvez. Mas seria ingenuidade imaginar que os golpistas – indisfarçados agentes políticos da ideologia neoliberal - caso tenham êxito em suas manobras antidemocráticas, iriam ficar satisfeitos com a retomada do poder executivo para implantar o seu projeto, cujo conteúdo jamais será explicitado e trazido ao debate aberto. Eles continuariam a aplicar o seu programa autoritário (pois é disso que se trata), calando a Cidadania, suspendendo direitos democráticos e amordaçando qualquer manifestação que considerarem nociva, capaz de por em risco os seus desígnios ditatoriais e antidemocráticos.

A censura mais draconiana seria aplicada, incluindo agora a comunicação eletrônica, com o cerco brutal e impiedoso ao blogueiros, que se mantêm serenos e corajosos no desempenho da sua brava missão de baluartes da resistência ao golpe e da reposição da verdade factual, comprometida pelas manipulações grosseiras da chamada grande imprensa. Aliada fiel e incondicional dos partidos neoliberais.

Uma pequena amostra desse tipo de censura pode ser detectada pelas inúmeras ações judiciais movidas pelos donos de jornal e seus obedientes funcionários contra os chamados "blogueiros sujos", na tentativa de, ao fazer pressão econômica pela via judicial, obter o seu silêncio.

Quais as causas para o desespero e o inconformismo dos partidos neoliberais frente à incontestável vitória eleitoral de 2014 da coalizão progressista que governa o país desde 2003? A ponto de assumir um posicionamento claramente golpista, quebrando a ordem constitucional vigente, colocando o Brasil numa situação ainda de maior risco, diante da prolongada crise do sistema capitalista mundial?

Começa a assumir contornos mais nítidos o que está em jogo nesta insana luta pelo poder assumida pelos agentes políticos neoliberais, aparentemente ignorando as graves consequências da divisão e da paralisação do Brasil neste difícil momento. Trata-se do confronto entre dois projetos inconciliáveis. Os quais foram submetidos, na prática, ao escrutínio dos brasileiros: o projeto neoliberal por oito anos ( 1994 a 2002) e o progressista e de inclusão social por doze (2003 /2014).

Um deles, o de origem neoliberal, propondo o Estado Mínimo, a extinção pura e simples das políticas sociais, a submissão do país no campo político internacional, a "neutralização" dos Movimentos Sociais, o arrocho salarial, o controle a todo custo da inflação e dos gastos do governo, a venda do patrimônio do país a preço vis, incluindo a Petrobrás, o aumento de juros e o pagamento – sagrado – da "dívida pública", jamais cometendo a heresia de questioná-la. Como se pode perceber, é um projeto a ser posto em prática de forma sub-reptícia, sem discussão e sem o necessário debate político.

O projeto alternativo é o que vem sendo aplicado nos últimos 12anos de governos progressistas e que a nação brasileira vivenciou até outubro de 2014, com grande aprovação popular, o que explicaria a reeleição da presidente Dilma Roussef: inclusão social, mais acesso ás escolas e às universidades, direito à casa própria, melhores salários e empregos e renda, independência no campo político internacional, incremento das condições de vida dos brasileiros situados abaixo da linha de pobreza, entre outras ações de Governos as quais se mostraram capazes de promover mais Igualdade e Justiça Social. Que soam como graves heresias para o neoliberalismo; e que podem ser considerados como os "erros" inaceitáveis dos governos progressistas.

Como, entretanto, o triunfo dos neoliberais não foi completo – pois faltou a presidência da República – seus estrategistas decidiram que o programa progressista deveria ser interrompido, a qualquer preço. Preparando a volta do retrocesso feroz.

(Vai que o povão ("ralé?) vai se acostumando e assume como um direito natural viagens aéreas, melhores emprego e renda, casa própria, escolas e até universidades...).

A contenção dos avanços sociais e a promoção da desigualdade seriam, então, a síntese do programa neoliberal, que por razões óbvias, deverá permanecer oculto.

Se pegarmos o exemplo da chamada dívida pública, para muitos observadores a estratégia econômica fundamental do projeto conservador, iremos notar que a sua discussão e o debate político qualificado é cada vez mais restrito. Esquecido, até.

Para alguns especialistas no tema, a dívida pública constitui simplesmente uma fraude, algo ilegítimo, imposto a vários países, a qual compromete gravemente o seu progresso e o seu desenvolvimento. E drena recursos, (que seriam aplicados em obras essenciais), para os bancos privados. Em alguns países esses recursos, generosamente transferidos, somam quase a metade de todo o orçamento

De acordo com a economista Maria Lúcia Fatorelli, presidente da Auditoria Cidadã da Dívida Pública, em entrevista recente a "Caros Amigos" (acessível em www.caros amigos.com.br/ nº 224/2015 - "Opressão Financeira"), trata-se de um endividamento público ilegítimo, e que vem obrigando os brasileiros a desistir do seu crescimento econômico e da manutenção de políticas públicas , como Saúde e Educação, por exemplo. Para entender melhor os incríveis mecanismos que mantêm ativas essas "tenebrosas (e infinitas) transações" é recomendável a leitura da íntegra da entrevista. Após sua leitura, nenhum brasileiro consciente continuará pensar de forma ingênua sobre a economia do seu país. E sobre a propalada "crise econômica", repetida de forma incansável pela mídia.

Um outro ponto fulcral do programa é a destruição lenta e inexorável do Estado de Bem Estar Social, um item prioritário do Neoliberalismo. Associado ao aumento brutal da Desigualdade.

A historiadora portuguesa Raquel Varela , em entrevista, expõe com bastante clareza estes dois aspectos da pauta Neoliberal, mostrando, em números: "em 1945, a diferença entre um rico e um pobre( ou trabalhador qualificado) na Europa , era de 1 para 12; em 1980 subiu de 1 para 82; e hoje é de 1 para 530".

É possível que esses fatos ajudem a explicar o atual contexto político. A vitória da Oposição na eleição presidencial de 2014 era um imperativo estratégico para a implantação do seu projeto conservador, no qual o Retrocesso seria o objetivo norteador das ações do novo Governo.

Portanto, o discurso (de mão única) moralista e a preocupação com a corrupção compõem apenas uma fachada para encobrir metas estratégicas inconfessáveis da pauta neoliberal.

Se para atingir tais objetivos, tornou-se necessária a interrupção do processo democrático, como preço a pagar, que se cumpra o ritual autoritário de destruição da Democracia. Recurso sempre disponível aos neofascistas latino-americanos.

Diante de tão sérias ameaças, qual tarefa caberia às forças progressistas, nesta difícil conjuntura?

Antes de tudo, fazer a interpretação correta da grave situação política – repetimos: situação política - vivenciada pelo país, agregando todas as variáveis disponíveis, evitando preconceitos ou vieses ideológicos. Em outras palavras, entender perfeitamente qual é o jogo e quem são os adversários;

Deixar de lado, em definitivo, concepções ingênuas, adquirindo a clara percepção de que inconfessáveis interesses do Capitalismo Internacional movem as peças do jogo político interno, manipulando eleições e altas decisões estratégicas no campo político e econômico;

Assumir, como fato concreto, que os segmentos bem articulados politicamente conseguem o domínio do complexo jogo do Poder. Vide o exemplo da atual espúria articulação entre setores da mídia, do judiciário e do congresso nacional, na defesa dos interesses - explícitos e ocultos - do Capitalismo Internacional;

Trabalhar pelo desenvolvimento permanente de ações políticas, organizadas a partir de fundamentações teóricas e avaliações táticas e estratégicas, implantadas a partir da articulação entre partidos políticos, organizações sociais, sindicais e da sociedade civil, na defesa de conquistas sociais, das liberdades públicas e do processo democrático. Colocando-se, de forma intransigente, contra todas as tentativas de Retrocesso;

Enfim, organizar a luta política, unindo, inteligentemente, os mais diversos segmentos representativos da Nação Brasileira, de forma a garantir a mobilização permanente das suas forças democráticas e progressistas. Evocando, novamente, o historiador britânico Arnold Toynbee que afirmava: "Civilização é um movimento não uma condição; uma viagem, não um porto". Podemos inferir que este raciocínio do historiador, pode ser aplicado 'a Democracia.

Algo que se conquista a cada dia. Uma luta infinda contra os que, de forma melíflua e traiçoeira, pretendem vê-la extinta, para melhor defender seus interesses escusos, contra os mais legítimos interesses do país. Este é o cenário da luta atual do povo brasileiro."
Autor: Geniberto Paiva Campos (Médico) no site Brasil 247 em 15/12/2015.

A lógica da opção da mídia pela Percepção e não pela Realidade
"Uma campanha de marketing histórica da revista americana Rolling Stone confrontava percepção e realidade.

A campanha virou um caso de estudo.

Era assim. A percepção das pessoas era que a RS era lida por hippies, ou neo-hippies, pessoas avessas a qualquer tipo de consumo.
A realidade era que os leitores da RS consumiam como todos os leitores de revista.

Indigente em publicidade, a revista se tornou um sucesso publicitário.

Essa campanha me ocorreu ao ler o levantamento da Folha deste domingo sobre os 13 anos de PT no poder.

Escrevi já um artigo, mas não citei a RS e sua clássica diferenciação entre percepção e realidade.

Involuntariamente, a Folha mostrou a percepção e a realidade. A percepção é que o país não melhorou. Foi o que disseram, segundo a Folha, 68% dos ouvidos.

A realidade, no entanto, é que todos ganharam nestes 13 anos. Os 10% mais ricos tiveram 30% de aumento na renda em termos reais, descontada a inflação.

Para os 10% mais pobres, o aumento foi de 129%, o que significou uma redução no real câncer nacional: a desigualdade social.

A Folha usa uma expressão parecida com uma que marcou os anos Lula. Esse tipo de coisa nunca acontecera antes na história medida pelo IBGE.

Pois bem.

Você tem aí percepção versus realidade. A percepção: não melhoramos. A realidade: melhoramos sim.

E qual a opção que a Folha escolhe para dar na manchete? A percepção. Desnecessário dizer, o resto da mídia acompanhou-a nesse passo maldado.

A Folha teve uma grande chance de mostrar a realidade. Mas escolheu a percepção, pela qual, aliás, ela é um dos responsáveis.

Você pode ver o poder da percepção nos depoimentos dos manifestantes deste domingo na Paulista.

Todos descreviam o apocalipse, desgarrados dos fatos em si. O país acabou. Estamos destruídos. Não há mais esperança fora de um golpe.

Você tem, nisso, uma prova do serviço horroroso que a mídia presta para a sociedade. Jornais e revistas desinformam, manipulam, escamoteiam.

Eles criam uma realidade paralela, uma distopia absoluta que mostra um país em processo de desintegração.

O motivo é sabotar um governo popular. É uma rotina. Aconteceu o mesmo em 1954 com Vargas e em 1964 com Jango.

Se Dilma for derrubada, a imprensa engavetará imediatamente a distopia. Um clima de otimismo estridente se espalhará pelo país por jornais, revistas, rádios, telejornais e sites das grandes empresas jornalísticas.

A corrupção deixará as manchetes, não por ter sido debelada, mas por não ser mais útil para desestabilizar os inimigos.

Aécio poderá continuar, tranquilamente, fazendo coisas como um aeroporto particular com dinheiro do povo. Eduardos Cunhas continuarão a tramar no Congresso para aprovar medidas favoráveis à plutocracia.

Seremos felizes. Mas de mentirinha. Como nos tempos da ditadura, durante os quais Medici, numa frase célebre, disse que era ótimo ver o Jornal Nacional. Num mundo convulso, o Brasil era um oásis de próspera tranquilidade segundo o JN.

Os únicos que terão reais motivos para gargalhar são os plutocratas. A desigualdade avançará e, em consequência, os ricos ficarão ainda mais ricos.

A utopia será uma percepção. A realidade será cruel."
Autor: Paulo Nogueira no Diário do Centro do Mundo em 14/12/2015.

3 de dezembro de 2015

Impeachment

"A aceitação do pedido de impeachment pelo Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, ocorre em um momento em que poucas vezes a classe política brasileira esteve tão desacreditada, e tão, também – intencionalmente - vilipendiada junto à opinião pública.

No início do ano, logo depois das eleições, pesquisa do Datafolha indicava que 71% dos entrevistados não tinham preferência por nenhum partido político.

Em julho, pesquisa do IBOPE mostrava que o Congresso Nacional ocupava a penúltima posição entre 18 instituições pesquisadas, incluídas a Igreja e o Exército, com a confiança de apenas 17% da população, enquanto, diuturnamente, os mesmos internautas que atacam o PT o faziam – e continuam fazendo - com a classe política, contrapondo a deputados, senadores, vereadores, prefeitos, ministros, considerados, pela bandeira da antipolítica, corruptos, bandidos e desonestos, um altíssimo índice de confiança – empurrado pela própria atitude da mídia – em policiais, procuradores e juízes, como se entre os magistrados, no Ministério Público e nas forças de segurança, só houvesse profissionais impolutos e ilibados, e para o exercício da atividade política fosse característica primordial e imprescindível a condição de mentiroso, ladrão, pilantra e mau-caráter.          

É perigoso e ingênuo acreditar que esse seja apenas um retrato do momento, que possa ser corrigido somente com a troca da correlação de forças, e que não haja nada mais no horizonte, além do embate entre diferentes partidos e grupos políticos e os aviões de carreira.  

Iludem-se os políticos de centro e de oposição, os oportunistas e os indiferentes, se acreditam que, entregando a cabeça de Dilma Roussef, terão as suas poupadas, e elas continuarão sobre os ombros, para se abaixar à passagem da faixa presidencial.
Pelo contrário, Dilma pode, paradoxalmente, ser o dique – ou o alvo – que ainda atrai para si as balas e contêm o tsunami.

A criminalização da atividade política, insuflada contra o PT pela oposição, secundada por uma mídia seletiva e comprometida, quebrou, quase que definitivamente, o equilíbrio de poderes em que se baseia o sistema republicano tradicional, substituindo a negociação, anteriormente exercida como base do Presidencialismo de Coalizão, pela atuação de forças externas, de caráter não  nominalmente, mas profundamente político, criando uma espécie de Frankenstein descontrolado, que coloca, de fato, parcela da burocracia do Estado, acima e além daqueles que detêm o voto da população.

O “acoelhamento” do Senado, recusando a prerrogativa de julgar um de seus pares, mesmo que para sua posterior entrega à prisão – abrindo mão de tentar, ao menos, mostrar firmeza, autonomia e determinação ética para a opinião pública - é o retrato da rendição do Poder Legislativo à máquina repressora de parte da justiça, e abriu a possibilidade para que qualquer homem público seja acusado, em seqüência, de qualquer coisa, a qualquer momento, bastando cair em uma esparrela, por um bilhetinho qualquer – subitamente elevado pela imprensa à condição de “documento” - a acusação de um desafeto ou de um delator “premiado” disposto a qualquer atitude para salvar a própria pele, ou uma frase passível de interpretação dúbia ou subjetiva pinçada em seu e-mail ou em uma conversação telefônica.    

Que os incautos não se iludam.

Não haverá tergiversação ou acordo com aqueles que estiverem, na base do governo, ou na oposição, alimentando a ilusão de pensar que irão substituir a Presidente da República em caso de impeachment, ou mesmo de sucedê-la, eventualmente, tranqüilo e normalmente, por meio do voto.

Qualquer liderança que representar ameaça para o projeto de poder em curso – que, mais uma vez, não se iludam os incautos, parece não se tratar de outra coisa – poderá vir a ser eventualmente envolvida na maré de acusações e afastada da vida pública, com as suas cabeças rolando, uma por uma.

A única esperança de retorno a uma situação de normalidade mínima está, no curto prazo, na interrupção negociada, inteligente e equilibrada, do processo de strip-tease, de MMA mútuo, público e suicida dos diferentes partidos e lideranças aos olhos da opinião pública.

E no fim da busca de soluções extemporâneas para a disputa do poder – qualquer singularidade só pode beneficiar forças externas ao ambiente político – com um retorno ao calendário e aos ritos de praxe, o que implica na defesa institucional e organizada, por parte da classe política, de sua imagem frente à opinião pública, seguida de uma disputa programática e civilizada nas próximas eleições, que serão realizadas em menos de um ano.

Isso não bastará, naturalmente, para terminar com o processo de desgaste intencional da atividade pública que está se aprofundando, com enorme e deletério sucesso, e que pretende, entre outras coisas, substituir os “políticos” clássicos, hoje abertamente reputados como “sujos”, por impolutos e heroicos justiceiros messiânicos, que gozam de poder para, se quiserem, tentar governar indiretamente o país por meio de pressões e prisões, ou para fazer uma súbita e “surpreendente” irrupção no universo político.              

Mas, pelo menos, poderá levar a atual geração de homens públicos – em última instância herdeira da representação popular por meio do voto – a fazer frente, unida, cerrando fileiras, independente de sua orientação política, a pressões externas, senão em defesa de si mesma, ao menos do Parlamento, como um poder independente, e da própria Democracia, no lugar de se arriscar a sair da vida pública e a entrar na história, um por um, submissos e humilhados, com as mãos nas costas, e a sua biografia arrastada na lama.

Essa reação não impedirá que, embalados pela mídia e as campanhas iniciadas pela própria oposição, personagens oriundos das operações em curso venham a se sentir tentados a participar, também, diretamente, do processo político, transformando-se eventualmente em candidatos, nos próximos pleitos.

Como o Aedes Aegypti, a mosca azul pode picar qualquer um, e o seu vírus é mais poderoso que o da dengue ou que o da chikungunya.

Como um procurador fez questão de lembrar, há poucos dias, há operações que estão em curso – que eram vistas inicialmente como uma  forma de tirar o PT do poder - que deverão durar pelo menos pelos próximos 10 anos.

Isso as transforma, como um touro trancado em uma loja de louças - em um elemento novo, incontrolável e permanente – que deverá ter seus efeitos analisados, avaliados e eventualmente corrigidos e limitados, por quem de direito na Praça dos Três Poderes – no contexto do processo econômico, social e político brasileiro."
Mauro Santayana

30 de novembro de 2015

Chega de notícias ruins

"(...) Na semana passada a Globo anunciou a demissão do jornalista Sidney Rezende, que trabalhava desde 1997 na GloboNews. A emissora jura que o facão foi por motivos operacionais, no bojo de uma "reestruturação da empresa" - que perde audiência e tende a perder anunciantes. Mas, curiosamente, o jornalista demitido havia postado na mesma semana em seu perfil no Facebook uma dura crítica ao papel da imprensa no Brasil. "Reengenharia" ou censura? Só o futuro dirá, mas vale conferir o artigo lúcido de Sidney Rezende." (por Altamiro Borges, no Blog do Miro)
*****
Chega de notícias ruins
"Em todos os lugares que compareço para realizar minhas palestras, eu sou questionado: "Por que vocês da imprensa só dão 'notícia ruim'?"

O questionamento por si só, tantas vezes repetido, e em lugares tão diferentes no território nacional, já deveria ser motivo de profunda reflexão por nossa categoria. Não serve a resposta padrão de que "é o que temos para hoje". Não é verdade. Há cinismo no jornalismo, também. Embora achemos que isto só exista na profissão dos outros.

Os médicos se acham deuses. Nós temos certeza!

Há uma má vontade dos colegas que se especializaram em política e economia. A obsessão em ver no Governo o demônio, a materialização do mal, ou o porto da incompetência, está sufocando a sociedade e engessando o setor produtivo.

O "ministro" Delfim Netto, um dos mais bem humorados frasistas do Brasil, disse há poucas semanas que todos estamos tão focados em sermos "líquidos" que acabaremos "morrendo afogados". Ele está certo.

Outro dia, Delfim estava com o braço na tipoia e eu perguntei: "o que houve?". Ele respondeu: "está cada vez mais difícil defender o governo".

Uma trupe de jornalistas parece tão certa de que o impedimento da presidente Dilma Rousseff é o único caminho possível para a redenção nacional que se esquece do nosso dever principal, que é noticiar o fato, perseguir a verdade, ser fiel ao ocorrido e refletir sobre o real e não sobre o que pode vir a ser o nosso desejo interior. Essa turma tem suas neuroses loucas e querem nos enlouquecer também.

O Governo acumula trapalhadas e elas precisam ser noticiadas na dimensão precisa. Da mesma forma que os acertos também devem ser publicados. E não são. Eles são escondidos. Para nós, jornalistas, não nos cabe juízo de valor do que seria o certo no cumprimento do dever.

Se pesquisarmos a quantidade de boçalidades escritas por jornalistas e "soluções" que quando adotadas deram errado daria para construir um monumento maior do que as pirâmides do Egito. Nós erramos. E não é pouco. Erramos muito.

Reconheço a importância dos comentaristas. Tudo bem que escrevam e digam o que pensam. Mas nem por isso devem cultivar a "má vontade" e o "ódio" como princípio do seu trabalho. Tem um grupo grande que, para ser aceito, simplesmente se inscreve na "igrejinha", ganha carteirinha da banda de música e passa a rezar na mesma cartilha. Todos iguaizinhos.

Certa vez, um homem público disse sobre a imprensa: "será que não tem uma noticiazinha de nada que seja boa? Será que ninguém neste país fez nada de bom hoje?". Se depender da imprensa brasileira, está muito difícil achar algo positivo. A má vontade reina na pátria.

É hora de mudar. O povo já percebeu que esta "nossa vibe" é só nossa e das forças que ganham dinheiro e querem mais poder no Brasil. Não temos compromisso com o governo anterior, com este e nem com o próximo. Temos responsabilidade diante da nação.

Nós devemos defender princípios permanentes e não transitórios.

Para não perder viagem: por que a gente não dá também notícias boas?"
Por Sidney Rezende

10 de novembro de 2015

Bob Fernandes: "Crônicas da ascensão fascista" (ou: O Moralismo Caolho e Hipócrita)


O pior: já sabemos como isso costuma acabar. A história está cheia de exemplos.



Publicado em 9 de nov de 2015
" Protesto paralisa rodovias em 12 estados. Ação de caminhoneiros que se anunciam "independentes" de sindicatos, contrários a aumentos nos impostos e preços de combustíveis e...pela saída de Dilma. Via WhatsApp, mensagens outras buscam espalhar pânico. Dizem que petroleiros querem provocar desabastecimento de gasolina e gás. No domingo, 8, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, foi hostilizado em um restaurante em Belo Horizonte. Ministro responsável pela implantação do Bolsa Família nos governos Lula, de 2004 a 2010, Patrus não tem acusações de corrupção contra si. "Petista, ladrão, safado, bolivariano", gritaram cidadão, que diz ser empresário, e um amigo. O ministro e um amigo não deixaram pra lá, reagiram. Patrus cobrou: -Escreva, põe isso no papel para que eu possa processá-lo... Confrontado, o empresário recuou e confessou: "Sou ladrão, sou corrupto igual ao PT... e sonego para não dar dinheiro para partido ladrão". Filmada e exposta nas redes sociais, a cena entra para a História como clássico do moralismo caolho e hipócrita. De gente que sonega impostos, rouba, enquanto aponta para corrupção alheia. Na segunda vez em que foi chamado de "ladrão" o ex-ministro da Fazenda, Mantega não deixou pra lá. Processou, e dois tipos pediram desculpas publicamente. Na Califórnia, outro tratou a presidente Dilma como "assassina" e "ladra". Repetiu-se o habitual "Deixa pra lá, é só um oportunista..." Na mesma Belo Horizonte, no velório do ex-senador José Eduardo Dutra, há um mês, vaias, e panfletos pregando: -Petista bom é petista morto... Outra vez, "deixa prá lá, são só oportunistas..." Há semanas, em São Paulo, Eduardo Suplicy e o prefeito ouviram berros: -...comunista, bolivariano, Haddad vagabundo... Também o vídeo dessa cena viralizou nas redes sociais. Nos dias seguintes, os registros impressos do fato. Assépticos, acríticos, já que tratavam de "bolivarianos" que devem "ir pra Cuba"... etc. Isso numa livraria chamada "Cultura". Aquela metáfora se completou com o berreiro se dando próximo a pilhas do livro "Como conversar com um fascista", de Marcia Tiburi. Então, mais uma vez, o habitual: "Deixa pra lá, são só oportunistas". Sim, são oportunistas, mas é preciso lembrar: a escalada começa sempre da mesma forma. E já sabemos como termina."

6 de novembro de 2015

A Crise Política e Econômica (e os possíveis canditados para 2018)

Mesmo tentando incessantemente fugir do debate político, depois de tantos anos no front (confesso: estou cansado), resolvi redigir rápida (tentativa de) análise da questão política/econômica atual.
Ao contrário do que muitos pensam, o Brasil sairá fortalecido de toda esta crise. Grande parte dela "vendida" como sendo devido aos "desmandos" do atual governo federal.
Lembrando que existem governos estaduais e municipais. E que temos, além do Poder Executivo, os Poderes Legislativo e Judiciário. E o "quarto poder": a grande imprensa que segue - aqui pra nós - "levemente" tendenciosa, sem assumir claramente o seu posicionamento, óbvio. Todos com sua parcela de culpa ou (Ok...) tentativas de resolver os problemas.
A crise atual teve o seu primeiro capítulo - e causador de tudo - no estouro da bolha imobiliária dos EUA em 2008. A explosão foi tão grande que continuou reverberando como um eco ao longo dos anos e em longas distâncias.
Com a globalização não dá para ninguém escapar quando existe um rombo nas economias mais importantes do mundo.
Depois dos efeitos nocivos nos EUA - onde o governo teve até mesmo que estatizar a Chrysler – por exemplo - para ela não quebrar (quem diria... ações ‘comunistas’ nos EUA) - a onda chegou entre 2010 e 2012 na Europa, atingindo mais fortemente Grécia, Portugal, Espanha e Itália (além de países menores, pouco citados).
No Brasil - e BRICs de forma geral - a onda demorou mais a chegar por conta de intervenções dos governos que tentaram a qualquer custo evitar danos à economia e, sobretudo, ao cidadão comum. Mas a crise internacional se prolongou além do previsto e da capacidade dos governos de segurarem a onda. Isso aconteceu em 2014. Desta vez não ficaram de fora o Brasil, a Rússia, África do Sul e até mesmo a toda poderosa China sentiu impacto no seu monumental PIB.
Além disso, existia a imensa dívida social que o país precisava resgatar, sob o risco de termos enormes convulsões sociais. Embora continuemos com uma distribuição de renda sofrível, o fato é que os programas sociais conseguiram pela primeira vez na história tirar o Brasil do Mapa da Fome da ONU (países onde se morre, literalmente, de fome). Um feito digno de Prêmio Nobel da Paz. Mas isso custa caro e é uma despesa que todos temos que pagar. Não é um problema do atual governo. Era um vergonhoso problema da história do Brasil.
Assim, dizer que o Brasil foi incompetente e que esta é uma crise exclusivamente brasileira é má fé mesmo.
Quanto ao fato de venderem a ideia de que o atual partido no poder "inventou a corrupção" soa como piada para desavisados. A corrupção é endêmica desde o Brasil Colônia, sabemos. E em quase todos os outros países também (desconfio que não dá nem para salvar os nórdicos, embora em menor escala, obviamente). Atualmente grande parte dela é devido ao financiamento privado de campanhas que o STF derrubou este ano, embora parte do Congresso ainda insista em manter o status histórico.
Pela primeira vez não há intervenção do Poder Executivo nas investigações e pela primeira vez existem investigações e punições embora pareçam ser parciais, escolhendo que caminho seguir e a quem punir, quando na verdade deveriam ser amplas, gerais e irrestritas, avançando inclusive em épocas anteriores que nunca foram investigadas embora existissem denúncias, todas devidamente engavetadas.
A 'seletivade' das investigações e indignações mostra um país artificialmente dividido, onde nem partidos de situação nem partidos de oposição se entendem. Muito menos o povão.
Embora não seja mostrado, o principal partido de oposição está em frangalhos e não herdará o espólio do partido atualmente no poder. Caciques brigam entre si e é possível que brevemente existam migrações para outros partidos, tentando sobreviver à crise que eles mesmo agigantaram. A teoria do ódio não deu certo e o golpe não prosperou. Fica cada vez mais claro para a população que tem gente querendo não resolver o problema e sim piorá-lo. Agora é a história da "farinha pouca meu pirão primeiro". E salve-se quem puder, afinal de contas novas eleições brevemente baterão à porta.
Mas... "apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia".
Não é um otimismo só meu nessa época sombria para (quase) todos, vejam dados atualizados apresentados pelo jornalista Miguel do Rosário: "Para 2016, o boletim Focus, que apura a opinião dos agentes privados, estima que a balança comercial será de US$ 26 bilhões, quase duas vezes maior que a prevista para este ano, de US$ 14 bilhões.
Os investimentos estrangeiros diretos, aqueles voltados para a produção, continuam altos: estima-se que atingirão US$ 65 bilhões este ano. O mundo continua apostando no Brasil.
Para 2016, a previsão é que os investimentos estrangeiros diretos continuem acima de US$ 60 bilhões.
É a prova mais contundente de que prognósticos sombrios não colam no Brasil por muito tempo.
À diferença de colegas latinos, temos uma economia diversificada, em vários sentidos. Exportamos de tudo e faturamos tanto com exportação quanto com consumo interno. Se o dólar sobe, exportamos mais. Se o dólar cai, compramos mais.
Também não temos os problemas recorrentes de alguns países desenvolvidos, como dívida pública excessiva e população velha.
Nossa dívida pública é relativamente baixa e nossa população ainda será bastante jovem por algumas décadas."
E assim, sigamos em frente, não percamos a fé, pois nosso país e os que o defendem somos maiores que tudo isso. Em que pese o momento de baixa no emprego e alta de inflação, em que pese muitos jogando para que isso piore, superaremos esses desafios. É aguardar para confirmar. Chega de pessimismo e de gente torcendo para o mar pegar fogo pra comer peixe frito. Sigamos em frente, unidos pelo bem de todos, sobretudo dos que mais precisam.
P.S.:
E 2018? Quais seriam os candidatos? Imaginei um cenário para as eleições presidenciais. Apenas uma das inúmeras possibilidades que vejo, observando o momento atual. Mês que vem pode ser outra. Algumas indicações são meras hipóteses a princípio não realizáveis e talvez até absurdas mas...
Vamos lá:
- PT: Lula
- PSDB: Aécio
- PMDB: José Serra (abandonaria o PSDB por causa de Aécio e do Alckmin)
- PSB: Geraldo Alckmin (abandonaria o PSDB por causa do Aécio e do Serra)
- PDT - Ciro Gomes (Cristovam Buarque corre por fora)
- REDE: Marina Silva
- PSOL: Jean Wyllys (Luciana Genro tentaria outra vez?)
- PV: Eduardo Jorge (leve suspeita de que Alvaro Dias poderia deixar o PSDB - por causa do Aécio, Alckmin e Serra - e vir candidato pelo PV)
- PRTP ou PSC - Jair Bolsonaro (neste caso Levy Fidelix ou Pastor Everaldo, um dos dois, ficaria de fora da disputa)
:)

30 de outubro de 2015

Dinheiro vem, dinheiro vai, dinheiro entra, dinheiro sai

Em tempos de vacas magérrimas (figurativa e literalmente), estava pensando em nossos hábitos de consumo.
Não se trata de fazer um libelo contra o consumismo desenfreado. Acho que já tentei isso aqui e não sei se convenci alguém. Nem a mim mesmo.
É sobre o dia a dia.
Não tem jeito, só o ar que respiramos é de graça. Por enquanto. E olha que ele vem poluído. Tente ver o preço de uma garrafa de oxigênio.
Então, se não pode com ele, analise-o pelo menos.
Sim. Se quiser gastar menos e ter o melhor, é bom fazer isso: analisar o seu perfil consumidor. Tal importância que dou ao tema é por que tenho certeza que sou péssimo nele.
Gasto mais do que deveria ou poderia. Mas já fui pior.
Andei emparedado por horríveis monstros econômicos que me devoravam noite e dia. Consegui algumas armas para me libertar mas eles continuam à espreita.
Enfim, nossos gastos maiores ou menores se concentram nas opções oferecidas.
Minha TV por assinatura, por exemplo, custa uma fortuna mensalmente. As operadoras costumam oferecer as armadilhas dos pacotes fechados. Você não pode montar sua própria grade de canais.
Querem um exemplo? Esses dias descobri listado na minha fatura um certo "Canal Especial" que me somava R$ 50,00 ao já assustador valor final. Liguei para saber o que era aquilo e a atendente me disse que era o "canal adulto" do meu pacote. Já entenderam né? Canal adulto é canal pornô. Em HD. Não é que eu não goste da coisa, mas nunca pedi um canal pornô na minha assinatura.
Nem sabia, porque ele vem (e continua) bloqueado por senha que nem sei qual é (acreditem!). Solicitei para ela retirar (sem maldade, please). "Impossível senhor, seu pacote é premium e esse canal faz parte, não pode ser retirado". Como assim? Tentei de tudo e não consegui retirar o canal. "A não ser que mude o pacote, senhor". Então muda, senhora! "Mais aí o senhor não terá direito aos pontos adicionais". Desisti. E olhem que eu - confesso - apelei, dizendo que era uma pessoa muito religiosa e que aquilo era um pecado. Acho que ela não acreditou não. Desconfio que não passei sinceridade nos meus apelos...
Estou pensando seriamente em ficar só com a Netflix: filmes e séries à rodo a preço de um combo do Burger King. E com quatro pontos que podem ser acessados simultaneamente em qualquer lugar que esteja. O futuro é o streaming! Basta um bom sinal Wi-Fi. Que não seja caro.
E as roupas? Comprando em grandes magazines você gasta bem menos do que naquela boutique legal, com atendimento diferenciado e roupas de grife com caimento perfeito (huuumm...). Decidi fazer isso! Fui em uma delas e gostei logo de cara da estampa de uma camisa. O problema é que tinham mais 325 (eu contei, juro!)  exatamente iguais nos cabides! Sem falar em algumas denúncias envolvendo pagamento de quantias irrisórias a serviços terceirizados. E a não preocupação com a questão ambiental. Tudo isso me faz pagar menos, mas a que preço?
Voltei então para a boutique. A estratégia é comprar peças boas mas em menor quantidade, de forma bem espaçada. Pelo menos até os grande magazines se enquadrarem.
Ou optar por aquele antigo brechó que agora é chique.
E no bar nosso de cada dia? Gosto de experimentar novos sabores de cerveja, agora que é modismo a tal da cerveja artesanal. Não sou de beber muito mas até hoje não descobri quem é essa pessoa que eles recomendam beber junto, um tal de Moderação. "Beba com Moderação", eles dizem.
O fato é que em um boteco com ar condicionado (não, não era um "pé sujo") pedi uma que me havia sido recomendada. Não me lembro do nome agora. A surpresa veio ao final, na conta: cada garrafinha custava a bagatela de R$ 26,00! Peraí garçom! Essa artesanal é da Bélgica? "Não senhor, é da cidade mesmo". Nem paga transporte aéreo e custa essa fortuna? Ah sim. O lúpulo é importado. Deve ser de Marte. Voltei então para o chopp básico, enquanto vejo na Internet como se produz cerveja em casa. A esse preço vou investir na minha própria cerveja artesanal feita na panela de pressão. Para meu consumo e para venda. A R$ 26,00.
Ah! Sim! Consegui controlar minha compulsão de comprar discos e livros (sim, em tempos de Internet ainda compro discos e livros). Pelo menos nesta semana. Sabe como é companheiro, uma semana de cada vez.
Bem, viram como é bom fazer uma análise? Como assim não cheguei a conclusão razoável nenhuma? Viram então o meu problema né?! E ainda gastei o tempo de vocês. Sorry!

Em tempo: o criador e titular deste blog, Luiz Felipe Muniz, faz aniversário hoje. Parabéns caro amigo! Vida longa com saúde e paz de espírito. Um grande abraço!

Apesar da contenção de gastos, reservei uma garrafa da Carlsberg Jacobsen Vintage ($400/375ml) para o aniversariante do dia: apenas 600 garrafas são produzidas anualmente desta barley wine(*). O problema é que só são consumidas em restaurantes de Copenhagen. Sem problema Felipe, já que a validade é até 2059! Quando chegar lá diga o meu nome que eles trazem a garrafa! :)

(*) "O barleywine (vinho de cevada) normalmente atinge um teor alcoólico de 8 a 12% em volume e é fabricado a partir de mosto de alta densidade até 1.120. O uso da palavra wine (vinho) é devido ao seu teor alcoólico semelhante a um vinho; mas, uma vez que é feito a partir de grãos (malte) em vez de frutas, ele é, de fato, uma cerveja".

23 de outubro de 2015

Em Friburgo, Macaé e Rio das Ostras, a resposta do enigma da capa do disco "Clube da Esquina"

Gosto muito de música. De quase todos os gêneros. Música boa é música que não é ruim. Em qualquer estilo.
E gosto de fotografia. Boas fotografias também.
Se a boa fotografia vier como capa de um ótimo disco, uno duas paixões.
É o que ocorre com o álbum duplo "Clube da Esquina", criação coletiva da turma de Minas com o destaque de Milton Nascimento e Lô Borges.
Lançado em 1972 é um dos melhores discos da história da MPB.
E a capa não fica atrás.
Mostra apenas uma foto, de dois garotos à beira de uma estrada. Não aparece o nome do disco nem dos artistas. Apenas aquela foto interiorana, de uma infância na roça, de dois amigos inseparáveis.
Por muito tempo achei que era uma fotografia de Milton e Lô, uma vez que eram amigos de infância.
Depois vim a saber que foi uma uma imagem registrada quase que por acidente. O fotógrafo viu as crianças na beira da estrada. Parou o carro e bateu a foto sem maiores estudos de luz, ângulo, abertura, etc.
Mas qual seria a história desta icônica capa deste lendário disco? E quem seriam aquelas crianças e onde estariam agora?
Só recentemente tive acesso a uma matéria publicada no "Diário de Pernambuco" em 2012 (na verdade a publicação original foi no jornal "Estado de Minas"). Foi através de uma postagem do amigo Paulo André em anúncio de seu programa "Caiana Radio", que vai ter um especial no domingo sobre o Clube da Esquina.
Trata-se de um trabalho investigativo para descobrir quem eram aqueles dois garotos e onde estariam agora.
Reproduzo a deliciosa matéria para quem, como eu, gosta de boa música, capas de discos, fotografias e boas histórias.

Tonho e Cacau, a dupla que estampou a capa do Clube da Esquina, 40 anos depois
"Ainda mais rápidos do que o habitual, os passos do editor de Cultura, João Paulo Cunha, na manhã de terça-feira, só poderiam significar duas coisas: ou algum artista importante tinha morrido ou… “Achamos os meninos!”. João Paulo acabara de saber que a repórter Ana Clara Brant e o fotógrafo Túlio Santos tinham cumprido a missão que lhes foi confiada na semana passada: percorrer os arredores de Nova Friburgo e localizar, 40 anos depois, os dois garotos que aparecem na capa do Clube da Esquina. A única referência eram indicações um tanto imprecisas do autor da imagem, o fotógrafo pernambucano Cafi, que clicara os garotos a caminho da fazenda da família de um dos letristas do disco, Ronaldo Bastos, e jamais havia os reencontrado.

Munida de cartazes com a reprodução da fotografia, a dupla chegou à Região Serrana do Rio de Janeiro e saiu em busca do objetivo. Conversou com mais de 50 moradores da região. Suposições, negativas, dúvidas… até que uma das entrevistadas, Beth, bateu o olho na foto e, sem hesitar, identificou os garotos. Vieram outras confirmações e o trabalho passou a ser não só localizá-los, mas promover o inédito reencontro. Às 16h de quarta-feira, a repórter ligou para a redação e, eufórica, anunciou que a missão estava cumprida. Depois de escutar o relato, temperado por surpreendentes coincidências e lances inusitados, perguntei a Ana Clara se havia ficado emocionada com o desfecho da busca. E a resposta não poderia ser mais mineira: “Nó! Tirei até uma foto com eles, uai!”.

Com vocês, a história de dois meninos brasileiros que partilharam pães e sonhos numa estrada de terra no início dos anos 1970. Lô e Bituca? Não, Tonho e Cacau. Essa é uma história de poeira, espelho, vidro e corte. Mas é, acima de tudo, uma história com gosto de sol.

Nova Friburgo, Macaé e Rio das Ostras

Você já ouviu falar em Tonho e Cacau? Ou quem sabe em José Antônio Rimes e Antônio Carlos Rosa de Oliveira? Provavelmente não, mas certamente já deve ter se deparado com a fotografia deles por aí. Isso porque os dois Antônios ilustram a capa de um dos discos mais importantes da história da música brasileira: o Clube da Esquina. Passados 40 anos que a câmera de Carlos da Silva Assunção Filho, o Cafi, registrou os dois meninos sentados na beira de uma estrada de terra perto de Nova Friburgo, Região Serrana do Rio, o Estado de Minas conseguiu localizá-los depois de uma busca que envolveu dezenas de pessoas e teve histórias saborosas.

Durante bom tempo, muita gente chegou a achar que as duas crianças da capa do LP seriam Milton Nascimento e Lô Borges, mas os próprios artistas sempre desmentiram. “A gente chegou a ir atrás deles, mas era muito difícil localizá-los. Eles devem ter caído no mundo”, declarou Cafi antes de a reportagem botar o pé na estrada rumo a Nova Friburgo. Na verdade, “Lô” e “Milton” praticamente nunca deixaram a região conhecida como Rio Grande de Cima, na zona rural da cidade fluminense, onde nasceram e cresceram.

José Antônio Rimes tem 47 anos e curiosamente exerce o ofício de recompositor, responsável por encaixotar, organizar e distribuir as mercadorias na seção de congelados de um supermercado da cidade. Apesar de a reportagem ter percorrido quilômetros até chegar a Tonho, como é conhecido, ele trabalha a um quarteirão do hotel onde estávamos hospedados. O encontro com o “menino branquinho do disco”, como ficou conhecido, foi cercado de expectativas. Os colegas do supermercado já sabiam da história e quando o recompositor chegou até se assustou: “Que tanto de gente é essa? Por que está todo mundo parado?”, espantou-se. Quando viu a capa do disco, não titubeou: “Oh, sou eu e o Cacau. Como é que vocês conseguiram isso? Quem tirou essa foto? Eu me lembro desse dia”, revelou.

Antônio Rimes recorda que estava brincando em um morro de terra removida pelos tratores que ficava próximo a um campinho de futebol, quando Cafi e Ronaldo Bastos passaram dentro de um Fusquinha. “Alguém do carro me gritou e eu sorri. Estava comendo um pedaço de pão que alguém tinha me dado, porque eu estava morrendo de fome, e para variar descalço. Até hoje não gosto muito de usar sapato. Mas nunca soube que estava na capa de um disco. A minha mãe vai ficar até emocionada. A gente nunca teve foto de quando era menino”, disse Tonho, que nunca ouviu falar em Milton Nascimento, tampouco em Clube da Esquina. “É aquele moço que foi ministro?”, indagou.

Já Antônio Carlos Rosa de Oliveira, de 48 anos, o Cacau, conta que não se lembra do exato momento da foto, mas que anos depois, quando morava em Macaé, no litoral norte do estado do Rio, se deparou com a capa do Clube da Esquina em uma loja de discos e desconfiou que se tratava dele mesmo. “Coloquei a mão sobre a minha foto e fiquei reparando aquele olhar. Achei que era eu mesmo e acabei comprando o CD, porque o LP não tinha mais. Até queria um para poder guardar”, frisa Cacau, que durante toda a reportagem não se desgrudou do álbum que pertence a um dos jornalistas do Estado de Minas . “Vou roubar este pra mim”, brincou.

Cacau e Tonho nasceram na fazenda da família Mendes de Moraes, na zona rural de Nova Friburgo, onde os pais trabalhavam como lavradores. Não desgrudavam um do outro e aprontavam bastante, segundo o relato de parentes e vizinhos que ajudaram a reconhecê-los. Jogavam futebol, bola de gude, pegavam frutas nas vendas da região, nadavam na prainha do Rio Grande e nas cachoeiras. Ficaram muito próximos até os 20 anos, quando as famílias acabaram se mudando para bairros diferentes de Nova Friburgo. Tonho ainda vive na cidade com a mãe, a esposa e as duas filhas, mas Cacau se mudou recentemente para Rio das Ostras, na Região dos Lagos, onde presta serviços como jardineiro e pintor.

Mesmo morando a 100 quilômetros de Nova Friburgo, topou reviver com o amigo a clássica fotografia da capa do Clube da Esquina. Não foi fácil localizar o exato lugar, já que a região do Rio Grande sofreu muito com os efeitos da tragédia de janeiro do ano passado e com o tempo. “Isto aqui mudou demais, então não dá para precisar. Quarenta anos não são 40 dias”, filosofou Cacau. Apesar do sol escaldante e da posição desconfortável, eles não se importaram de posar para a máquina fotográfica. “Quer que eu tire o sapato pra ficar parecido? Adoro ficar descalço mesmo! Se tiver um pão, também pode me dar”, pediu Tonho, dando gargalhadas.

Surpresa
A princípio, Tonho e Cacau ficaram ressabiados com a história de estamparem a capa de um LP e ao saber que a imprensa estava atrás deles. As famílias também desconfiaram. A mãe de Tonho, dona Aparecida Rimes, de 69 anos, a toda hora ligava para saber do filho, com receio de ele ter sido sequestrado. “A gente nunca viu isso por aqui. Mas agora que vocês chegaram à cidade estão dizendo que meu filho está até no computador. Fico preocupada”, admitiu a aposentada.

Cacau revela que só se deslocou de Rio das Ostras para Nova Friburgo porque achava que tinha alguma pendenga familiar para resolver. “Pensei que era coisa de pensão de ex-mulher. Essas coisas. Não acreditei muito nessa conversa de repórter não”, justificou o jardineiro, que é fã de MPB e conhece a obra de Bituca. “Gosto muito de Canção da América. É muito bonita. Mas o que vai acontecer agora que o povo vai descobrir que esse menino do disco não é o Milton Nascimento? Será que vão achar ruim comigo?”, questionou receoso.

Apesar de não compartilharem a intimidade de outrora, vez por outra eles se esbarram por Nova Friburgo e colocam o papo em dia. “A gente não tem tempo, fica nessa correria de trabalho, família. Eu fico no serviço das 6h às 18h, então complica demais encontrar com o pessoal. Cada um tomou o seu rumo, mas sempre que a gente se vê é uma farra. Amigo é amigo, né? Para toda a vida”, destacou Tonho.

Cara do Brasil
Autor da imagem original, o fotógrafo pernambucano Cafi conta como nasceu o clique: “A gente ficava andando com o Fusquinha do Ronaldo (bastos) pelas estradas, tirando foto de nuvens, porque a gente ia criar a nossa empresa, Nuvem Cigana. Uma das nuvens, inclusive, está no encarte do Clube da Esquina”. Ao ver os meninos, decidiu fazer o registro: “Foi como um raio”, lembra Cafi. “ É uma imagem forte. A cara do Brasil. E foi na época em que vários artistas estavam exilados fora daqui. E tinha essa coisa da amizade presente também. O Milton adorou a foto e ela acabou indo para a capa”, relembra Cafi, 61 anos, radicado no Rio de Janeiro.

O clube da busca
Foram necessárias, pelo menos, 53 pessoas para chegar até os dois “garotos”. Porém, algumas tiveram um papel fundamental. O desenrolar do fio da meada se deu quando, a pedido do Estado de Minas, um jornalista de Nova Friburgo, Wanderson Nogueira, anunciou na rádio local sobre a procura. Uma ouvinte da região, a costureira Rogéria dos Santos, de 56 anos, entrou em contato com a reportagem, comunicando que nunca tinha ouvido falar da história do disco, mas conhecia muitos moradores da zona rural que poderiam auxiliar na busca.

Rogéria dos Santos nos levou até a auxiliar de produção Gilcelene Tomaz Ferreira, de 33 anos, pois muitos da cidade desconfiavam que o menino negro do Clube seria alguém da família dela, filho de Severino, um antigo lavrador. Por indicação da mãe de Gilcelene, Helena, chegamos até Erasmo Habata, floricultor da região. Com o LP na mão, assegurou: “Este pretinho não é filho do Severino. Mas este mais branquinho é filho do Laerte Rimes, um lavrador da região. E deve ser o Tonho”, frisou. Outras indicações – pistas falsas – nos levaram a checar várias pessoas, entre elas um paciente internado em clínica psiquiátrica e até um foragido da Justiça.

Na manhã seguinte, partimos atrás de um casal que morou mais de 30 anos na região e conhece todo mundo: a dona de casa Elizabeth Fernandes Silva, de 58 anos, e o pedreiro Fernando da Silva, de 62. “Na época, a dona Querida, que é a mãe do Ronaldo e do Vicente Bastos, lá da Fazenda Soledade, nos mostrou essa foto num pôster. Sempre soube que eram o Tonho e o Cacau. Não temos dúvidas que são eles, porque eles viviam juntos pra cima e pra baixo”, apontou Beth. “Os dois conservam aquele jeitinho. São eles sim e acho que eles vão ficar muito felizes”, opinou Fernando.

E em menos de 24 horas, com a ajuda da população local, finalmente estava desvendado a identidade dos dois meninos da capa do Clube da Esquina. “A gente fica até emocionado. Eles mereciam ser descobertos. É um reconhecimento mesmo com tanto tempo”, resumiu Rogéria dos Santos."
Fontes: Diário de Pernambuco e Estado de Minas



As músicas do álbum duplo:
Lado Um
  1. "Tudo Que Você Podia Ser" (Lô Borges, Márcio Borges) – 2:56
    Interpretação: Milton Nascimento
  2. "Cais" (Milton Nascimento, Ronaldo Bastos) – 2:45
    Interpretação: Milton Nascimento
  3. "O Trem Azul" (Lô Borges, Ronaldo Bastos) – 4:05
    Interpretação: Lô Borges
  4. "Saídas e Bandeiras nº 1" (Milton Nascimento, Fernando Brant) – 0:45
    Interpretação: Beto Guedes e Milton Nascimento
  5. "Nuvem Cigana" (Lô Borges, Ronaldo Bastos) – 3:00
    Interpretação: Milton Nascimento
  6. "Cravo e Canela" (Milton Nascimento, Ronaldo Bastos) – 2:32
    Interpretação: Lô Borges e Milton Nascimento
Lado Dois
  1. "Dos Cruces" (Carmelo Larrea) – 5:22
    Interpretação: Milton Nascimento
  2. "Um Girassol da Cor do Seu Cabelo" (Lô Borges, Márcio Borges) – 4:13
    Interpretação: Lô Borges
  3. "San Vicente" (Milton Nascimento, Fernando Brant) – 2:47
    Interpretação: Milton Nascimento
  4. "Estrelas" (Lô Borges, Márcio Borges) – 0:29
    Interpretação: Lô Borges
  5. "Clube da Esquina nº 2" (Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges) – 3:39
    Interpretação: Milton Nascimento
Lado Três
  1. "Paisagem da Janela" (Lô Borges, Fernando Brant) – 2:58
    Interpretação: Lô Borges
  2. "Me Deixa em Paz" (Monsueto, Ayrton Amorim) – 3:06
    Interpretação: Alaíde Costa e Milton Nascimento
  3. "Os Povos" (Milton Nascimento, Márcio Borges) – 4:31
    Interpretação: Milton Nascimento
  4. "Saídas e Bandeiras nº 2" (Milton Nascimento, Fernando Brant) – 1:31
    Interpretação: Beto Guedes e Milton Nascimento
  5. "Um Gosto de Sol" (Milton Nascimento, Fernando Brant) – 4:21
    Interpretação: Milton Nascimento
Lado Quatro
  1. "Pelo Amor de Deus" (Milton Nascimento, Fernando Brant) – 2:06
    Interpretação: Milton Nascimento
  2. "Lilia" (Milton Nascimento) – 2:34
    Interpretação: Milton Nascimento
  3. "Trem de Doido" (Lô Borges, Márcio Borges) – 3:58
    Interpretação: Lô Borges
  4. "Nada Será Como Antes" (Milton Nascimento, Ronaldo Bastos) – 3:24
    Interpretação: Beto Guedes e Milton Nascimento
  5. "Ao Que Vai Nascer" (Milton Nascimento, Fernando Brant) – 3:21
    Interpretação: Milton Nascimento

9 de outubro de 2015

A Cúpula de Paris e o Verão Infernal

No final do próximo mês de novembro começa em Paris a COP21. Também chamada Cúpula de Paris (favor não confundir com 'Cópula em Paris', rs), é o mais importante encontro de mudanças climáticas da década, patrocinado pela ONU.
Em declaração registrada pelo The Guardian, o diretor de clima da União Europeia disse que não há plano B se a cúpula terminar em fracasso.
Esta semana, ministros do meio-ambiente de 53 países fizeram reuniões visando uma preparação prévia para o encontro, para evitar que o resultado seja inócuo.
O objetivo principal é evitar que o planeta continue em seu ritmo acelerado de aquecimento, pelo menos no que depender das ações humanas.
Problemas econômicos e políticos tem tirado o foco da questão ambiental, no entanto todas essas crises regionais e globais serão coisas pequenas diante do que se avizinha em termos de catástrofes se o planeta continuar aquecendo tão rapidamente.
Diante disso, parece que os líderes mundiais começam a se voltar para o tema. É isso que veremos na Cúpula de Paris.
2014 foi o ano mais quente já registrado. Este ano provavelmente baterá o recorde do ano passado (vejam como foi nosso inverno e como está sendo a primavera).
Diante disso, o que esperar de 2016? Com o reforço do El Niño em sua mais forte ação já registrada (aquecimento das águas do Pacífico), a possibilidade de temperaturas infernais no verão com localidades sujeitas a fortes chuvas é o que podemos esperar.
Tomara que não, mas preparem-se para possibilidades de temperaturas acima de 40º, fortes temporais, blackouts temporários e falta d'água em algumas regiões. 
Façam manutenção nos aparelhos de ar condicionado, comprem ventiladores, estoquem água quando possível (e, se estiverem de férias, façam plantão nas praias ou piscinas, se puderem). Paradoxalmente quando mais usarmos esses recursos, maior o risco de ficarmos sem eles - ainda que temporariamente. É aquela história, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Melhor nem pensar nisso e rezar para que o El Niño não faça tanto efeito e que a temperatura média não suba nem mais um grau. E que a Cúpula de Paris seja um sucesso. 

No mais, que "Papai do Céu" tenha pena de nós.

Leiam também:  Brasil se prepara para um verão de extremos


2 de outubro de 2015

Não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol ou se tem sol e não se tem chuva!

Hoje - não sei bem porque - me lembrei de uma poesia da Cecília Meireles.
A princípio destinada à crianças por sua simplicidade, pode trazer algumas releituras adultas acerca de opções que fazemos ao longo da vida.
Mas eu iria além, na maioria das vezes nem são opções, são fatos, acontecimentos inesperados ou simplesmente mudanças que vão acontecendo e transformando as nossas rotinas, as nossas opiniões e a nossa visão do que é a vida. Se é que algum dia teremos essa visão.

Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares.

De repente estou doente. No outro dia viajando. E passo a me preocupar com a saúde e valorizar viagens. E um respeitado autor me diz que querer estar viajando sempre é porque se está buscando em algum lugar algo que não se consegue achar dentro de si: o bem estar. Seria uma versão mais chique do comprar aquela última versão da TV de LED, do carro mais bonito ou daquela decoração da casa com objetos assinados por artistas mais valorizado$ do mercado. Esse autor se preocupa com sua saúde? Gosta de viajar? O que será que ele gosta de comprar para se satisfazer? CDs, roupas, objetos decorativos? Ou é um monge budista?

Cecília Meireles
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro.

De repente tenho que cuidar de um doente da família e os planos explodem. Ou, abandono o parente para que outro cuide e sigo na minha merecida zona de conforto. 
Trabalho até mais tarde para não deixar nada pendente para amanhã ou me desligo e busco a minha "liberdade, ainda que à tardinha"?
 As contas não fecham. Eu me estresso e busco soluções que parecem não existir. Por outro lado posso achar que isso é problema de quem está esperando receber as minhas dívidas e vou para a praia tomar uma cerveja, me endividando um pouco mais. Ou para a serra, tomar um bom vinho. Vinho caro ou barato?

É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares!

E vou fazer atividade física para cuidar da saúde e distendo o músculo da panturrilha. E ganho tempo assistindo aquela série maravilhosa de uma vez só. E perco tempo assistindo aquela série maravilhosa de uma vez só. E o ano passa rápido. Que bom, já estamos chegando em dezembro! E o ano passa rápido. Meu Deus, não vi este ano passar, o que eu fiz até agora?

Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranquilo.

E sigo pensando, me desgastando, tentando entender a vida, às opções e as ocorrências inesperadas. E tento fazer planos. Ou não. "Deixa a vida me levar, vida leva eu".

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . . e vivo escolhendo o dia inteiro!
Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo.




25 de setembro de 2015

Para entender (de verdade) a alta do dólar


"Richard Rytenband, economista e especialista em investimentos pela FGV, explica o que a maioria não quer que você entenda."

18 de setembro de 2015

Eu e o tempo: o primeiro Rock in Rio, 30 anos depois

O histórico cartaz oficial em inglês
No início deste ano escrevi o texto abaixo, lá no blog Impressões.
Resolvi reproduzi-lo hoje, quando se inicia mais uma edição do famoso festival.
Não estarei nessa edição, que me interessava mais por razões de memória afetiva (aquela nostalgia dos "bons tempos").
Quando decidi ir os ingressos já estavam esgotados e até que dei sorte: ainda me recupero de um dano muscular e não poderia ir mesmo. Problema de DNA :).
Acompanharei o que me interessa pelo Canal Multishow (Palco Mundo) e pela Internet (Palco Sunset).
O Palco Sunset está melhor que o Palco Mundo, por trazer atrações inusitadas.
Os Medinas perderam a oportunidade de fazer um dia exclusivamente homenageando a primeira edição do evento (30 anos), embora estejam trazendo 50% do Queen e o Rod Stewart.
Também perderam a chance de homenagear um dos principais nomes da história do Rock: hoje, 18 de setembro, completa-se 45 anos da morte de Jimi Hendrix. O festival poderia ser aberto com uma penca de guitarristas fazendo um show histórico. Pena.
Mas é isso, o tempo passa e nem tudo é lembrado como deveria...

O Rock In Rio se esqueceu, mas nós aqui não. Viva Hendrix!



Rock In Rio (e o tempo)
"Nesta semana comemora-se 30 anos da primeira edição de um dos maiores festivais de música do mundo, o Rock in Rio, que acabou se tornando lendário. Foi entre 11 e 20 de janeiro de 1985. Eu estava lá.

Pausa.

Mais de uma vez ouvi a análise de que a nossa geração (complementando a que veio antes) "acabou com a velhice". Ou pelo menos a atrasou em mais de vinte anos.
É bem verdade. Nos anos 1950 quem tinha pouco mais de 50 já era considerado "idoso".
Aplicar em nossas vidas os novos conhecimentos da ciência com relação à alimentação, atividades físicas e mentais, controle das emoções, etc. tem proporcionado isso. Fora os avanços da medicina.
Mas coloco em dúvida quando alguém me fala que, aos cinquenta e cinco, por exemplo, se sente com vinte, sem nenhuma diferença física ou mental em relação à juventude.

Pausa.

Em janeiro de 1985 eu trabalhava em alto mar. Indústria de petróleo. Estava embarcado e tinha que cumprir a escala. Perderia o Rock in Rio? Quase. Perdi uma parte. Desembarquei na quarta, consegui assistir aos quatro últimos dias.
Não vi muita gente boa: Rod Stewart, James Taylor, George Benson, Iron Maiden, etc. Em compensação tive o prazer de estar lá quando tocaram Queen, Whitesnake, Scorpions, AC/DC, Ozzy Osbourne, Yes, etc. E muitos brasileiros: Baby & Pepeu, Barão Vermelho, Kid Abelha, Gilberto Gil, Blitz, Lulu Santos, etc.

Pausa.
Pausa para pensar sobre a passagem do tempo

A energia da juventude - tanto física quanto mental - pode ser mantida em "idades mais avançadas", dependendo do DNA e das atitudes. Adicionada da experiência das vivências. With a little help from genetic.
No entanto, por mais que tenhamos avançado, não tenham dúvida: o tempo não para, como diria o Cazuza, e traz seus efeitos a cada nova idade que comemoramos. Começamos a envelhecer quando nascemos, não tem jeito.

Pausa.

O festival foi um evento histórico não só para o público. Por suas dimensões e pelo seu sucesso foi também um momento mágico inesquecível também para os artistas que participaram, incluindo os experientes internacionais, que ficaram assombrados com aquela platéia de mais de 150 mil pessoas por dia.
Quem foi se lembra como se fosse ontem. O que é muito legal. Mas também preocupante e melancólico: 30 anos se passaram muito rápido para mim.
A galera apelidou a cerveja de Malt 'Nojenta'
Os shows começavam por volta das 15 horas e terminavam lá pelas 3 da madruga. Ao final eu pegava o ônibus para Campo Grande (bairro da Zona Oeste do Rio) onde morava minha irmã. Chegava por volta das 5. Dormia até às 10. Comia alguma coisa e voltava para o festival.
Foi assim por 4 dias (e seria pelos 10 se eu tivesse tido a chance de ir em todos). Dormindo cerca de 4 horas, me alimentando mal, ficando em pé por 12 horas, embaixo de chuva (naquele tempo chovia em janeiro no Rio), por cima de muita lama, multidão ensandecida, bebendo chopp Malt 90 (que não existe mais) em copos plásticos de 750 ml cujos quiosques eram abastecidos por caminhões pipa que vinham direto da fábrica! Tinha 25 anos. E tava tudo muito bom, tudo muito bem, como cantava a Blitz. Lembrando que a infraestrutura na época não era nem sombra do que é atualmente. Festa, alegria, celebração. Cheguei a passar pelo Roberto Medina (o idealizador do festival) na entrada das bilheterias e o agradeci. Ele sorriu. Se sentia realizado.

Pausa.

Hoje, com toda juventude que uma pessoa de 55 anos possui, eu não encararia aqueles quatro dias, noites e madrugadas. É onde me refiro às limitações impostas pela passagem do tempo. Nesses extremos que só quem tem menos de 30 aguenta. Quer dizer, nem sei se a juventude de hoje arriscaria tanto em uma maratona daquele tipo. Todos querem mais é conforto. E não se pode condená-los por isso.

Mas eu estive lá! E fazem 30 anos hoje."

O Rock in Rio daqueles tempos: também na Barra. Malt 90 em primeiro plano